escrivaninha

do cidadão josé, josé julião, portanto

Tag: palavras e isso

O poente fica lá atrás

(Alentejo, 14 de Junho 2011. 19:49.)

Qualquer dia vou aprender sobre esta coisa da luz. Tentar perceber. Porque é que aqui o céu é branco no ocaso, se por acaso ainda estava azul e brilhante, assim todo em prata dourada como um colar de pechisbeque no pescoço de uma loira platinada? (Chiça que até rima)
Mas difícil mesmo é a fronteira da luz. O equilíbrio no arame que a qualquer momento se estatela lá em baixo. Um deve e haver de luminosidades e aberturas e temperatura da luz, como se um descuido a tornasse febril. E o céu a arder sem se ralar nada com isso. Mas pronto, um dia ainda vou tentar saber – até porque gostava mesmo de descobrir como é que aquilo da luz desfaz os vampiros…

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reaches the sky

não penses que é fácil, o céu pode esperar mas tu não, não se entra assim no céu como num buraco de agulha, não sem permissão, um visto, de ouro ou platina, uma palavra dada no sítio certo, ao ouvido adequado…

não penses que é fácil se o o céu não te quer, ou os anjos, os espectros que pensam que são anjos, caídos há muito, numa queda sem vertigem nem virtude, asas de arame farpado a tapar as portas do céu como nas profundezas dos infernos…

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“A quoi ça sert l’amour?”

podem responder se quiserem. se puderem. ou se ousarem. eu por mim não lhe vejo interesse nenhum. não se come. não se bebe. não se respira. não produz nada. não serve para nada. é como a arte. uma inutilidade.

(reflexão antiga, a despropósito de)

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E qual é mesmo a palavra mágica?

palavras mágicas para tudo. Palavras exactas que, ditas de forma precisa na fórmula correcta, têm o poder de fazer quase tudo. Há palavras para transformar príncipes em sapos. Palavras para revelar segredos ocultos e ocultar segredos revelados. Palavras que ofuscam ou dissimulam. Palavras que encantam e seduzem. Palavras que confortam. Palavras que provocam a cólera ou o perdão. Palavras que iniciam guerras ou as terminam. Palavras que aumentam o brilho dos olhos. Palavras que fazem respirar mais depressa. Palavras que derretem, o teu coração. E até… palavras que ditas de forma bem dita conseguem abrir a goela às portas mais empedernidas.

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é quando as memórias te ardem nos olhos que deves olhar o fogo

e o circo é sempre a memória da minha avó e a minha mão pequenina na mão da minha avó tão pequenina a entrar na tenda enorme a escorrer todas as cores as únicas cores da minha infância naquele tempo em que tudo era cinzento tão cinzento que até o nariz vermelho dos palhaços me parecia um milagre a reluzir espíritos santos de lantejoulas ao som de chapadas em caras brancas e saxofones roucos e quentes a sair das bocas abertas dos leões montados em bicicletas impossíveis com os guiadores para a frente onde se equilibrava uma família inteira mais um cão de chapéu bicudo de palhaço rico a fazer o pino e mulheres de pernas longuíssimas a voarem no trapézio como quem desafia a gravidade da lei do cinzento em rodopios de vertigem presas pelos cabelos num único raio de cor ao longo do arame onde outro palhaço balouçava as pernas impossíveis segurando na mão um guarda-chuva minúsculo de onde caia uma chuva de confettis coloridos a inundarem a pista de uma felicidade quente e eu a olhar a minha avó os olhos da minha avó brilhantes esquecidos das cataratas e do cinzento dos dias lá fora que hoje no circo é grátis às damas e estão aqui todas as avós do mundo

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(Circo Quinito. Finais do séc.XX. Alentejo)

Poema de Estar na Praia

Estou na praia.
Estou na praia e vou escrever um poema de estar na praia.
Um poema de estar na praia começa com os pés na areia.
Os pés na areia e a caneta no papel.
O vento no rosto.
No rosto e no caderno, com o vento a querer virar as páginas como um gaiato parvo.
É preciso segurar bem o caderno para contrariar o vento, dobrá-lo pela lombada, a mão, esquerda, em pinça.
Fico assim preparado para escrever um poema de estar na praia.
Os pés na areia.
A caneta no papel.
O caderno seguro contra o vento.
E um chapéu na cabeça, como a pala de um beiral sobre os olhos, a fintar o sol do Sul, inchado de tanto Verão.
Acho que agora é que é o poema de estar na praia com os pés na areia.
Depois dos pés, o mar.
Dos pés e da toalha que a maré sobe e a onda trepa sobre a toalha desprevenida.
Levar tudo mais para cima, torcer a toalha, voltar ao caderno, dobrá-lo contra o vento, a caneta sobre o papel, os pés na areia, escrever:

Poema de Estar na Praia

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v i n d i m a s

Lá em baixo os homens despejam enormes baldes de plástico (sem o glamour dos velhos cestos de verga) na goela do reboque. O tractor equilibra-se como pode pela encosta abaixo, o sumo a escorrer, num rasto de Ariane, traça o caminho da adega. As uvas, ubérrimas de sol, vão ser esmagadas, ainda, por pés que as calcam como quem dança ou quem procura o futuro num corpo esventrado entregue em sacrifício. Os bagos transformam-se em mosto, sangue sugado da terra que tinge e inebria até adormecer de cansaço, sono tumultuoso de crisálida a fermentar no escuro mineral das talhas. A fermentação é o acto que consagra a transubstanciação do suor na substância do vinho.

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perfume

É estranha a cor da terra nestes dias em que o calor desenha fantasmas de luz a meio caminho do horizonte e o chão exala um cheiro a lábios gretados e ao uivo surdo da sede. Ao longe, o canto das cigarras incendeia as asas dos pássaros que explodem no ar com um ruído de ossos partidos e folhas secas. O alcatrão derrete-se como chocolate negro, lodo nos sapais que agarra pés incautos e os puxa e afunda no hálito a ervas podres e enxofre dos pântanos. É com este tempo que se faz o sal, no rosto dos homens, nas axilas das mulheres.

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diário gráfico

Ao meu lado, uma mulher jovem pousa na perna azul uma mão de unhas pintadas em diagonal vermelho, brilhante. No anelar, um anel de metal branco e liso acentua um tom cuidadosamente misterioso. É bonita mas não gosto dos sapatos.

Do outro lado, um grupo de homens estrangeiros, de pele muito escura e traços quase europeus (seja lá isso o que for), asiáticos, talvez do Bangladesh, seguram nas mãos maços de papéis oficiais que encerram o seu futuro de cidadãos residentes neste país quase europeu.

Na televisão passa o programa da tarde que é igual ao programa da manhã, só que é à tarde. Donas de casa (nunca gostei desta expressão) e reformados de ambos os géneros batem palminhas ao ritmo de uma música que não oiço, uma mulher gorda e muito loura canta e a anfitriã rege tudo com um sorriso maternal e triunfante de abelha-mestra, de cerimónias.

Nos auscultadores enfiados nos meus ouvidos, Piazzolla e Gary Burton esgrimam instrumentos, num duelo feito de cumplicidades, e é estranho, no enorme ecrã à minha frente, ver aquelas pessoas a moverem-se ao ritmo da distância que separa o planeta onde vivem da realidade paralela onde eu estou sentado. Burton martela as notas a atapetar os passos elegantes do bandoneon num bailado perfeito que contrasta com as imagens da cantora loira e gorda a ensaiar bamboleios de pato nos saltos muito altos das suas botas de cano muito alto.

De repente, os números no monitor passam inesperadamente rápidos – gente que desistiu, com certeza – e a minha vez está quase a chegar.
Sou o 164. É agora.
Afinal não é aqui, é no outro Registo.

Olha a minha vida!…

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Vem comigo, porque é que não vens comigo?

Não foi.
Separaram-se ali. Devagar, como quem quer congelar o momento.
Espera-os um outro futuro que este não é compatível.
“Teremos sempre Lisboa e a marca dos teus dentes no meu coração” disse ela.
Ele disfarça uma lágrima com uma espécie de bocejo, a mão no rosto a esconder o passado – sabe que não são compatíveis e não há nada a fazer, é o regulamento.
“Vejo o teu rosto na moldura da almofada, gravei-o numa fotografia que trago comigo, na parte detrás dos olhos” não disse ele e olhou os barcos.

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a cidade maquilhada

Pintar a cidade de cores fortes. Exagerar. Aplicar camadas de base, cobrir manchas, rugas, imperfeições, olheiras e medos. Realçar com lápis, contornos e caminhos, becos e logradouros. Usar rímel para acentuar as sombras dos prédios, quiosques e antenas. Para parques e jardins usar um blush, o melhor é escolher um tom intenso e versátil entre o rosa choque e o pêssego histérico. Nos rios, lagos e fontes, deixar a tinta correr, livre. Realçar a beleza das janelas, com tons que complementem a cor das mesmas, ou que as contrastem vivamente. Pintar os olhos e o céu. Usar batons ou gloss, a gosto, de forma abundante e indiscriminada. E tinta, muita tinta no chão das avenidas.

Entrar na cidade, sem mapa, e perder-me intensamente nas ruas.

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e s t u á r i o

É no estuário que o rio se aquieta. Eu não.
É lá que entrega as águas e se rende. Eu não.

Eu entorno-me em ti, p’ra chegar ao coração.

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um rumor de asas

Sente-se a sua passagem na reverberação do ar, uma leve mudança na direcção do vento. Raramente sentimos a sua presença, só perceptível a nível molecular, como uma intuição ou uma descida de temperatura. Quase não deixam rasto. São como aqueles sismos tão suaves que só são registados por alguns animais ou dispendiosos instrumentos electrónicos, sofisticados e precisos. Mas são os ossos – um frio nos ossos, um arrepio agudo a descer pela coluna – quem melhor os detecta.

Dizem por aí que são belos e luminosos, de uma elegância infinita como a das estátuas antigas. Dizem também que nos ajudam e nos protegem e que são mensageiros de boas novas, de um futuro radioso. A verdade é que perscrutam os homens com olhos penetrantes, a arder de inveja da carne. Esvoaçam por aí em silêncio, vaidosos das suas asas. São sinais de desgraça, arautos do infortúnio. Como abutres, sobrevoam em bandos, cenários de catástrofes. A verdade é que a sua beleza é fria e perversa. E escondem na doçura do rosto o vício da queda.

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o preço das coisas

Queres comprar esta pedra?
– Não sei, deixa-me vê-la melhor.
É uma pedra muito valiosa.
– Tenho a certeza que sim. E quanto é que custa essa pedra?
É um bocado cara…
– Pois, é normal, se é uma pedra preciosa. Tens a certeza que a queres vender?
… hum …
– Se a venderes ficas sem ela. Queres mesmo ficar sem a pedra?
Se calhar é melhor não…
– Se calhar. Posso tirar-te uma fotografia?
Podes. Com a pedra!!
– Claro, mostra-a lá.
– “tchiik”
– Queres ver como ficou?
Quero.
– O que achas, parece-te bem?
Sim, vê-se bem a pedra.

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compromisso

o amor não faz prisioneiros, disseste-me tu um dia. na boca o sangue escorria ainda e os teus olhos em brasa marcavam-me a pele como os ferros às reses. lá fora o temporal latejava-me as têmporas. mas o amor não se rende, disse eu, a febre a queimar os lençóis. um relâmpago encheu o quarto de luz, acendeu no meu corpo um mapa de estigmas, os sulcos fundos das tuas unhas. o ar cheirava a suor e a sexo e ao cheiro a pólvora das trovoadas. a tua voz rouca emagreceu num rasto de mágoa (ou sou eu a desejar que assim tenha acontecido) quando disseste, o amor não é eterno, sabes, gasta-se, como o desejo, só permanece a vontade que temos dele. mas… comecei eu e esmagaste-me a boca com um beijo, a língua morta. acrescentaste ainda, não, não tens razão, o que resta do amor é o compromisso… e é essa a razão porque te deixo, meu amor.

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