escrivaninha

do cidadão josé, josé julião, portanto

a cidade maquilhada

Pintar a cidade de cores fortes. Exagerar. Aplicar camadas de base, cobrir manchas, rugas, imperfeições, olheiras e medos. Realçar com lápis, contornos e caminhos, becos e logradouros. Usar rímel para acentuar as sombras dos prédios, quiosques e antenas. Para parques e jardins usar um blush, o melhor é escolher um tom intenso e versátil entre o rosa choque e o pêssego histérico. Nos rios, lagos e fontes, deixar a tinta correr, livre. Realçar a beleza das janelas, com tons que complementem a cor das mesmas, ou que as contrastem vivamente. Pintar os olhos e o céu. Usar batons ou gloss, a gosto, de forma abundante e indiscriminada. E tinta, muita tinta no chão das avenidas.

Entrar na cidade, sem mapa, e perder-me intensamente nas ruas.

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e s t u á r i o

É no estuário que o rio se aquieta. Eu não.
É lá que entrega as águas e se rende. Eu não.

Eu entorno-me em ti, p’ra chegar ao coração.

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um rumor de asas

Sente-se a sua passagem na reverberação do ar, uma leve mudança na direcção do vento. Raramente sentimos a sua presença, só perceptível a nível molecular, como uma intuição ou uma descida de temperatura. Quase não deixam rasto. São como aqueles sismos tão suaves que só são registados por alguns animais ou dispendiosos instrumentos electrónicos, sofisticados e precisos. Mas são os ossos – um frio nos ossos, um arrepio agudo a descer pela coluna – quem melhor os detecta.

Dizem por aí que são belos e luminosos, de uma elegância infinita como a das estátuas antigas. Dizem também que nos ajudam e nos protegem e que são mensageiros de boas novas, de um futuro radioso. A verdade é que perscrutam os homens com olhos penetrantes, a arder de inveja da carne. Esvoaçam por aí em silêncio, vaidosos das suas asas. São sinais de desgraça, arautos do infortúnio. Como abutres, sobrevoam em bandos, cenários de catástrofes. A verdade é que a sua beleza é fria e perversa. E escondem na doçura do rosto o vício da queda.

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o preço das coisas

Queres comprar esta pedra?
– Não sei, deixa-me vê-la melhor.
É uma pedra muito valiosa.
– Tenho a certeza que sim. E quanto é que custa essa pedra?
É um bocado cara…
– Pois, é normal, se é uma pedra preciosa. Tens a certeza que a queres vender?
… hum …
– Se a venderes ficas sem ela. Queres mesmo ficar sem a pedra?
Se calhar é melhor não…
– Se calhar. Posso tirar-te uma fotografia?
Podes. Com a pedra!!
– Claro, mostra-a lá.
– “tchiik”
– Queres ver como ficou?
Quero.
– O que achas, parece-te bem?
Sim, vê-se bem a pedra.

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compromisso

o amor não faz prisioneiros, disseste-me tu um dia. na boca o sangue escorria ainda e os teus olhos em brasa marcavam-me a pele como os ferros às reses. lá fora o temporal latejava-me as têmporas. mas o amor não se rende, disse eu, a febre a queimar os lençóis. um relâmpago encheu o quarto de luz, acendeu no meu corpo um mapa de estigmas, os sulcos fundos das tuas unhas. o ar cheirava a suor e a sexo e ao cheiro a pólvora das trovoadas. a tua voz rouca emagreceu num rasto de mágoa (ou sou eu a desejar que assim tenha acontecido) quando disseste, o amor não é eterno, sabes, gasta-se, como o desejo, só permanece a vontade que temos dele. mas… comecei eu e esmagaste-me a boca com um beijo, a língua morta. acrescentaste ainda, não, não tens razão, o que resta do amor é o compromisso… e é essa a razão porque te deixo, meu amor.

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a p n e i a

respiro devagar a luz

dos teus olhos

para não me afogar

na escuridão

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Chovem gaivotas no cais das colunas

O cenário é uma cidade, grande e colorida, encaixada na margem de um rio como uma aguarela na parede de um museu. O mar à distancia da mão em pala sobre os olhos. A câmara percorre ruas estreitas e empedradas num falso plano sequência. Ergue-se do chão e, num elegante movimento de grua, entra por uma janela, mostra o interior de um restaurante num plongé suave, circular, até se fixar numa mesa de onde se afasta um empregado de avental negro até aos pés. Na mesa, um casal lê a ementa, campo/contracampo.

Ela, olhando-o fixamente: O que foi?
Ele, sem tirar os olhos da ementa: Nada, nada.
Ela: Não digas que não é nada que eu já te conheço. O que foi, não há nada que te agrade?
Ele, os olhos sempre na ementa: Não é isso, é…
Ela: O quê, queres ir a outro lado?
Ele: Não, é que me apetecia… apetecia-me um p o e m a…
Ela: Apetecia-te o quê? Fala mais alto!
Ele: Apetecia-me um poema. É que ainda tenho o gosto do teu corpo na boca e sinto-me, sei lá, poético…
Ela, um zoom nos olhos brilhantes como sóis negros, a mão sobre a mão dele: Mas não tomaste banho?

A câmara afasta-se e passa por uma senhora quase gorda – consoante a latitude – o olhar fixo na baquelite negra e brilhante do telemóvel. “Porque é que não me ligas, o que é que eu te fiz…” Pensa em voz off.
Num travelling ágil a câmara contorna o balcão e sai pela porta da cozinha. Um beco com contentores de lixo, grades empilhadas e barris de cerveja, redondos como vocábulos…

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Polo desNorte

entro no labirinto em busca de uma saída

da vida, um bar onde me afogue

ou o norte

ou a puta da sorte que me lave os olhos

do sal

enterro os pés na areia

da praia, Nova Iorque é ali do outro lado

do mar e eu

cravo o meu corpo de setas

São Sebastião das tabuletas…

… se eu quisesse enlouquecia

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espera armilar

… até que cheguei a esta entrada, uma porta enorme na muralha de pedra e que afinal entra pela vila adentro, cães à janela e gatos na rua, roupa estendida, flores em gaiolas, o vento a fazer remoinhos de folhas nos cantos das ruas, sons de pássaros, trinados, vindos não se sabe de onde e uma estranha ausência de sombras, como se fosse sempre meio-dia
– não sei como cheguei aqui, lembro-me de seguir um rasto de migalhas de perfume, estrela guia de um qualquer hemisfério, o que sei mesmo é que me fartei de esperar por ti quando acordei, trôpego, cinzento, as pernas de borracha a tropeçarem nas memórias da véspera e estas a voarem para todos os lados, como aquela coisa das plantas, toda em pêlos de espuma, que soprávamos em criança –
percorro as ruas empedradas minuciosamente, todas as portas estão fechadas, mesmo as de lojas e tabernas, tenho sede, encontro o chafariz público, a bica de pedra, esculpida em boca de bicho, está seca há muito tempo, roubo uma laranja do ramo, os gatos roçam-se nas minhas pernas, não vejo mais ninguém, nem vozes nem risos, no ar um cheiro metálico, sangue? sacrilégio? chego a um largo estreito com bancos de pedra e a estátua de uma ninfa, maneta, ao centro, sento-me e fecho os olhos, penso em ti, sinto o tempo passar por mim como as imagens num filme muito acelerado…

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regresso à porta na muralha, é noite, não sei como te perdi…

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o sítio das lágrimas

em mim há qualquer coisa que se arrasta
em mim há qualquer coisa que me dói
em mim há qualquer coisa que se afasta
em mim há qualquer coisa que me rói

em mim há qualquer coisa que é nefasta
em mim há qualquer coisa que não sei
em mim há qualquer coisa que se gasta
em mim há qualquer coisa onde errei

em mim há qualquer coisa que s’ausenta
em mim há qualquer coisa que não está
em mim há qualquer coisa turbulenta
em mim há qualquer coisa que não dá

em mim há qualquer coisa que se quebra
em mim há qualquer coisa que eu perdi
em mim há qualquer coisa que não medra
em mim há qualquer coisa que se ri

em mim há qualquer coisa que há em mim
em mim há qualquer coisa que eu falhei
em mim há qualquer coisa de ruim
em mim há qualquer coisa que eu matei

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sobre a minha pele tu não sabes nada

Tento erguer-me em bicos dos pés acima da minha própria mortalidade. Estico-me por cima do mundo na tentativa de um pequeno vislumbre, uma nesga de luz. Olhos de gato em noite de lua nova. Os anos sabem a chumbo no arrastar dos passos. Não os que passaram voláteis, éter destapado, mas os que faltam. Estes que se aproximam num comboio desgovernado. Torrente de lava imparável a queimar sonhos e a vida que resta. O sangue que se envenena lentamente e os ossos, a furarem o mapa do corpo, a reinventarem azimutes de dor em novos lugares. Noites que se abrem em clarões negros de falta de ar. E nem quero falar da morte. A Terra gira indiferente a tudo o que não seja a sua vertigem de carrossel. Não há apeadeiros, apenas os nomes das estações a escorrerem borrões na paisagem.

O fim está sempre próximo depois da pele.

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Arte de bem cavalgar

Não te esqueceste de nada?
Acho que não, meu pai.
Deste comer às galinhas?
Sim, meu pai.
Soltaste as cabras?
Sim, meu pai.
Apagaste a luz?
Sim, meu pai.
Não te esqueceste dos anos da tua mãe?
Não, meu pai.
O que é que lhe vais dar?
Um perfume.
Outra vez? Não lhe deste um perfume no ano passado?
Não, meu pai, foi há dois anos, mas é o que ela quer.
Como é que sabes?
Disse-me a tia.
E o que é que estiveste a fazer ontem à noite, que te deitaste tão tarde?
Estive na internet, meu pai.
Ah, a internet…

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dos sonhos

não sonho os sonhos que sonhava, sabes?
Aqueles sonhos redondos em tecnicolor que me tapavam à noite e eu debaixo deles como num cavalo de corrida à desfilada. Por vezes voava até cair com um estremeção de ossos e acordava nu no meio de uma praça cheia de gente e eu a fugir numa cidade desconhecida que depois daquela esquina era a minha rua e pela outra rua era Paris e o sonho rebentava como uma bola de sabão furada pela voz da minha mãe ou, mais tarde, pelos gritos estridentes do despertador e depois, tantas vezes, pelos teus lábios a derreterem flocos de sonhos que ainda pairavam, borboletas ou mosquitos, a zunir-me restos da noite na madrugada e eu a prolongar a cama para os colar à pele como uma tatuagem.

Eram sonhos que me alimentavam e me protegiam os dias contra o excesso da luz, aquela luz que cega e revela as impurezas dos corpos como uma gargalhada num velório ou os dislates incontidos dos bêbados. Sonhos que limavam as arestas aos dias, a bomba na mão dos asmáticos e eu a reaprender a respirar.
A noite tornou-se mais espessa sem eles, um poço de alcatrão que atravesso cego e sem bengala, estranhamente menos densa, sem corpo nem praça nem cores e por isso mais pesada e eu a acordar como se não tivesse dormido e só o sol da manhã a atravessar o passador dos estores me salva do pânico…
Já não sonho os sonhos que sonhava, sabes?

dos sonhos

“fragmentos de um discurso amoroso”

… não sei que mais escrever quando as palavras… não faltam mas, se recusam a mostrar o rosto e eu fico sem… depois tu não estavas e a tua ausência é o inverno… e o inverno é eterno e eu tão pequeno que…é tão fácil sentir-me perdido… falavas do corpo, lembras-te? dizias que o corpo tem uma memória biológica e que sentias as minhas mãos bailarinas como se… e que a alma respira através do corpo, e eu que não acredito em almas, acredito na respiração dos poros, que suspiram quando acaricio a tua pele… lembro-me que aprendi a sorrir quando te provei a boca pela primeira vez… sabes, o coração não é um órgão democrático, nem tem maneiras de estar à mesa… mas por vezes o coração atrapalha-se e eu… vivo no brilho dos teus olhos e agora, fora deles, empalideço, definho… saber-te é tudo… resta-me o teu gosto no palato da memória… e a marca a fogo pintada no coração…

cardeologia emocional

Sul

regresso ao Sul de onde não saí nunca
o Sul colado na cal da pele em tatuagens de luz
e as cigarras a serrarem o silêncio
ao ritmo do tempo que só há no Sul
a que regresso
como se vuelve siempre al amor

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