escrivaninha

do cidadão josé, josé julião, portanto

[trinta e três]

Dezembro. Dezembro e o narrador sentado numa das cadeiras de madeira e metal do centro de Segurança Social. A fazer a “prova de vida” uma vez mais. O narrador pensava que por esta altura já não precisaria de vir aqui de quinze em quinze dias fazer a apresentação quinzenal. Mas o narrador é ingénuo e um tipo, como dizer? paradoxal: por um lado é pouco imaginativo, por outro, pouco realista, o que é uma faixa estreita para se viver, um arame escorregadio. Burocracias, inércias e outras porcarias, atravessam-se no caminho como excrementos de cão nos passeios da cidade. Enfim…

E cá está ele sentado mais uma vez, a olhar para o painel dos números e com o papelito na mão. N057. Desta vez a espera fá-lo esperar mais do que o costume. Repara que há uma árvore de natal no canto do balcão, onde este faz um L. Uma árvore de natal verde, de plástico, com bolas vermelhas e luzes verdes e vermelhas que acendem e apagam em três ritmos alternados, tem ainda umas fitas largas vermelhas e translucidas e, ao cimo, uma grande estrela vermelha como um ponto num i. Reparando melhor, e troca de óculos, há também uma luzinhas azuis numa fita de luzes mais abaixo.

Ao lado, um homem vestido de castanho, com botas castanhas, cabelo castanho e um chapéu castanho, a lembrar um tronco de árvore sem folhas fala com a funcionária em frente, do outro lado do balcão. Entretanto acende-se o número do narrador no ecrã de fundo verde e este dirige-se ao pedaço de balcão que tem por cima uma roda de plástico pendurada num tubo metálico, uma roda transparente, depois branca, com um desenho verde e vermelho, amarelo ao centro onde se destaca um número grande e preto. Por baixo, a senhora do atendimento com um dedo tatuado em anel, repara ainda o narrador antes de fechar o caderninho…

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perfume

É estranha a cor da terra nestes dias em que o calor desenha fantasmas de luz a meio caminho do horizonte e o chão exala um cheiro a lábios gretados e ao uivo surdo da sede. Ao longe, o canto das cigarras incendeia as asas dos pássaros que explodem no ar com um ruído de ossos partidos e folhas secas. O alcatrão derrete-se como chocolate negro, lodo nos sapais que agarra pés incautos e os puxa e afunda no hálito a ervas podres e enxofre dos pântanos. É com este tempo que se faz o sal, no rosto dos homens, nas axilas das mulheres.

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diário gráfico

Ao meu lado, uma mulher jovem pousa na perna azul uma mão de unhas pintadas em diagonal vermelho, brilhante. No anelar, um anel de metal branco e liso acentua um tom cuidadosamente misterioso. É bonita mas não gosto dos sapatos.

Do outro lado, um grupo de homens estrangeiros, de pele muito escura e traços quase europeus (seja lá isso o que for), asiáticos, talvez do Bangladesh, seguram nas mãos maços de papéis oficiais que encerram o seu futuro de cidadãos residentes neste país quase europeu.

Na televisão passa o programa da tarde que é igual ao programa da manhã, só que é à tarde. Donas de casa (nunca gostei desta expressão) e reformados de ambos os géneros batem palminhas ao ritmo de uma música que não oiço, uma mulher gorda e muito loura canta e a anfitriã rege tudo com um sorriso maternal e triunfante de abelha-mestra, de cerimónias.

Nos auscultadores enfiados nos meus ouvidos, Piazzolla e Gary Burton esgrimam instrumentos, num duelo feito de cumplicidades, e é estranho, no enorme ecrã à minha frente, ver aquelas pessoas a moverem-se ao ritmo da distância que separa o planeta onde vivem da realidade paralela onde eu estou sentado. Burton martela as notas a atapetar os passos elegantes do bandoneon num bailado perfeito que contrasta com as imagens da cantora loira e gorda a ensaiar bamboleios de pato nos saltos muito altos das suas botas de cano muito alto.

De repente, os números no monitor passam inesperadamente rápidos – gente que desistiu, com certeza – e a minha vez está quase a chegar.
Sou o 164. É agora.
Afinal não é aqui, é no outro Registo.

Olha a minha vida!…

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Vem comigo, porque é que não vens comigo?

Não foi.
Separaram-se ali. Devagar, como quem quer congelar o momento.
Espera-os um outro futuro que este não é compatível.
“Teremos sempre Lisboa e a marca dos teus dentes no meu coração” disse ela.
Ele disfarça uma lágrima com uma espécie de bocejo, a mão no rosto a esconder o passado – sabe que não são compatíveis e não há nada a fazer, é o regulamento.
“Vejo o teu rosto na moldura da almofada, gravei-o numa fotografia que trago comigo, na parte detrás dos olhos” não disse ele e olhou os barcos.

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a cidade maquilhada

Pintar a cidade de cores fortes. Exagerar. Aplicar camadas de base, cobrir manchas, rugas, imperfeições, olheiras e medos. Realçar com lápis, contornos e caminhos, becos e logradouros. Usar rímel para acentuar as sombras dos prédios, quiosques e antenas. Para parques e jardins usar um blush, o melhor é escolher um tom intenso e versátil entre o rosa choque e o pêssego histérico. Nos rios, lagos e fontes, deixar a tinta correr, livre. Realçar a beleza das janelas, com tons que complementem a cor das mesmas, ou que as contrastem vivamente. Pintar os olhos e o céu. Usar batons ou gloss, a gosto, de forma abundante e indiscriminada. E tinta, muita tinta no chão das avenidas.

Entrar na cidade, sem mapa, e perder-me intensamente nas ruas.

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e s t u á r i o

É no estuário que o rio se aquieta. Eu não.
É lá que entrega as águas e se rende. Eu não.

Eu entorno-me em ti, p’ra chegar ao coração.

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um rumor de asas

Sente-se a sua passagem na reverberação do ar, uma leve mudança na direcção do vento. Raramente sentimos a sua presença, só perceptível a nível molecular, como uma intuição ou uma descida de temperatura. Quase não deixam rasto. São como aqueles sismos tão suaves que só são registados por alguns animais ou dispendiosos instrumentos electrónicos, sofisticados e precisos. Mas são os ossos – um frio nos ossos, um arrepio agudo a descer pela coluna – quem melhor os detecta.

Dizem por aí que são belos e luminosos, de uma elegância infinita como a das estátuas antigas. Dizem também que nos ajudam e nos protegem e que são mensageiros de boas novas, de um futuro radioso. A verdade é que perscrutam os homens com olhos penetrantes, a arder de inveja da carne. Esvoaçam por aí em silêncio, vaidosos das suas asas. São sinais de desgraça, arautos do infortúnio. Como abutres, sobrevoam em bandos, cenários de catástrofes. A verdade é que a sua beleza é fria e perversa. E escondem na doçura do rosto o vício da queda.

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o preço das coisas

Queres comprar esta pedra?
– Não sei, deixa-me vê-la melhor.
É uma pedra muito valiosa.
– Tenho a certeza que sim. E quanto é que custa essa pedra?
É um bocado cara…
– Pois, é normal, se é uma pedra preciosa. Tens a certeza que a queres vender?
… hum …
– Se a venderes ficas sem ela. Queres mesmo ficar sem a pedra?
Se calhar é melhor não…
– Se calhar. Posso tirar-te uma fotografia?
Podes. Com a pedra!!
– Claro, mostra-a lá.
– “tchiik”
– Queres ver como ficou?
Quero.
– O que achas, parece-te bem?
Sim, vê-se bem a pedra.

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compromisso

o amor não faz prisioneiros, disseste-me tu um dia. na boca o sangue escorria ainda e os teus olhos em brasa marcavam-me a pele como os ferros às reses. lá fora o temporal latejava-me as têmporas. mas o amor não se rende, disse eu, a febre a queimar os lençóis. um relâmpago encheu o quarto de luz, acendeu no meu corpo um mapa de estigmas, os sulcos fundos das tuas unhas. o ar cheirava a suor e a sexo e ao cheiro a pólvora das trovoadas. a tua voz rouca emagreceu num rasto de mágoa (ou sou eu a desejar que assim tenha acontecido) quando disseste, o amor não é eterno, sabes, gasta-se, como o desejo, só permanece a vontade que temos dele. mas… comecei eu e esmagaste-me a boca com um beijo, a língua morta. acrescentaste ainda, não, não tens razão, o que resta do amor é o compromisso… e é essa a razão porque te deixo, meu amor.

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a p n e i a

respiro devagar a luz

dos teus olhos

para não me afogar

na escuridão

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Chovem gaivotas no cais das colunas

O cenário é uma cidade, grande e colorida, encaixada na margem de um rio como uma aguarela na parede de um museu. O mar à distancia da mão em pala sobre os olhos. A câmara percorre ruas estreitas e empedradas num falso plano sequência. Ergue-se do chão e, num elegante movimento de grua, entra por uma janela, mostra o interior de um restaurante num plongé suave, circular, até se fixar numa mesa de onde se afasta um empregado de avental negro até aos pés. Na mesa, um casal lê a ementa, campo/contracampo.

Ela, olhando-o fixamente: O que foi?
Ele, sem tirar os olhos da ementa: Nada, nada.
Ela: Não digas que não é nada que eu já te conheço. O que foi, não há nada que te agrade?
Ele, os olhos sempre na ementa: Não é isso, é…
Ela: O quê, queres ir a outro lado?
Ele: Não, é que me apetecia… apetecia-me um p o e m a…
Ela: Apetecia-te o quê? Fala mais alto!
Ele: Apetecia-me um poema. É que ainda tenho o gosto do teu corpo na boca e sinto-me, sei lá, poético…
Ela, um zoom nos olhos brilhantes como sóis negros, a mão sobre a mão dele: Mas não tomaste banho?

A câmara afasta-se e passa por uma senhora quase gorda – consoante a latitude – o olhar fixo na baquelite negra e brilhante do telemóvel. “Porque é que não me ligas, o que é que eu te fiz…” Pensa em voz off.
Num travelling ágil a câmara contorna o balcão e sai pela porta da cozinha. Um beco com contentores de lixo, grades empilhadas e barris de cerveja, redondos como vocábulos…

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Polo desNorte

entro no labirinto em busca de uma saída

da vida, um bar onde me afogue

ou o norte

ou a puta da sorte que me lave os olhos

do sal

enterro os pés na areia

da praia, Nova Iorque é ali do outro lado

do mar e eu

cravo o meu corpo de setas

São Sebastião das tabuletas…

… se eu quisesse enlouquecia

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espera armilar

… até que cheguei a esta entrada, uma porta enorme na muralha de pedra e que afinal entra pela vila adentro, cães à janela e gatos na rua, roupa estendida, flores em gaiolas, o vento a fazer remoinhos de folhas nos cantos das ruas, sons de pássaros, trinados, vindos não se sabe de onde e uma estranha ausência de sombras, como se fosse sempre meio-dia
– não sei como cheguei aqui, lembro-me de seguir um rasto de migalhas de perfume, estrela guia de um qualquer hemisfério, o que sei mesmo é que me fartei de esperar por ti quando acordei, trôpego, cinzento, as pernas de borracha a tropeçarem nas memórias da véspera e estas a voarem para todos os lados, como aquela coisa das plantas, toda em pêlos de espuma, que soprávamos em criança –
percorro as ruas empedradas minuciosamente, todas as portas estão fechadas, mesmo as de lojas e tabernas, tenho sede, encontro o chafariz público, a bica de pedra, esculpida em boca de bicho, está seca há muito tempo, roubo uma laranja do ramo, os gatos roçam-se nas minhas pernas, não vejo mais ninguém, nem vozes nem risos, no ar um cheiro metálico, sangue? sacrilégio? chego a um largo estreito com bancos de pedra e a estátua de uma ninfa, maneta, ao centro, sento-me e fecho os olhos, penso em ti, sinto o tempo passar por mim como as imagens num filme muito acelerado…

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regresso à porta na muralha, é noite, não sei como te perdi…

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o sítio das lágrimas

em mim há qualquer coisa que se arrasta
em mim há qualquer coisa que me dói
em mim há qualquer coisa que se afasta
em mim há qualquer coisa que me rói

em mim há qualquer coisa que é nefasta
em mim há qualquer coisa que não sei
em mim há qualquer coisa que se gasta
em mim há qualquer coisa onde errei

em mim há qualquer coisa que s’ausenta
em mim há qualquer coisa que não está
em mim há qualquer coisa turbulenta
em mim há qualquer coisa que não dá

em mim há qualquer coisa que se quebra
em mim há qualquer coisa que eu perdi
em mim há qualquer coisa que não medra
em mim há qualquer coisa que se ri

em mim há qualquer coisa que há em mim
em mim há qualquer coisa que eu falhei
em mim há qualquer coisa de ruim
em mim há qualquer coisa que eu matei

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sobre a minha pele tu não sabes nada

Tento erguer-me em bicos dos pés acima da minha própria mortalidade. Estico-me por cima do mundo na tentativa de um pequeno vislumbre, uma nesga de luz. Olhos de gato em noite de lua nova. Os anos sabem a chumbo no arrastar dos passos. Não os que passaram voláteis, éter destapado, mas os que faltam. Estes que se aproximam num comboio desgovernado. Torrente de lava imparável a queimar sonhos e a vida que resta. O sangue que se envenena lentamente e os ossos, a furarem o mapa do corpo, a reinventarem azimutes de dor em novos lugares. Noites que se abrem em clarões negros de falta de ar. E nem quero falar da morte. A Terra gira indiferente a tudo o que não seja a sua vertigem de carrossel. Não há apeadeiros, apenas os nomes das estações a escorrerem borrões na paisagem.

O fim está sempre próximo depois da pele.

sobre a minha pele tu nao sabes nada_1025