é quando as memórias te ardem nos olhos que deves olhar o fogo

by cidadão josé

e o circo é sempre a memória da minha avó e a minha mão pequenina na mão da minha avó tão pequenina a entrar na tenda enorme a escorrer todas as cores as únicas cores da minha infância naquele tempo em que tudo era cinzento tão cinzento que até o nariz vermelho dos palhaços me parecia um milagre a reluzir espíritos santos de lantejoulas ao som de chapadas em caras brancas e saxofones roucos e quentes a sair das bocas abertas dos leões montados em bicicletas impossíveis com os guiadores para a frente onde se equilibrava uma família inteira mais um cão de chapéu bicudo de palhaço rico a fazer o pino e mulheres de pernas longuíssimas a voarem no trapézio como quem desafia a gravidade da lei do cinzento em rodopios de vertigem presas pelos cabelos num único raio de cor ao longo do arame onde outro palhaço balouçava as pernas impossíveis segurando na mão um guarda-chuva minúsculo de onde caia uma chuva de confettis coloridos a inundarem a pista de uma felicidade quente e eu a olhar a minha avó os olhos da minha avó brilhantes esquecidos das cataratas e do cinzento dos dias lá fora que hoje no circo é grátis às damas e estão aqui todas as avós do mundo

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(Circo Quinito. Finais do séc.XX. Alentejo)

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