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by cidadão josé

O narrador acaba de entrar no centro de segurança social e espera a sua vez junto à secretária do segurança que distribui as senhas alfanuméricas dizendo ao que vai, mas só depois de duas senhoras que conversavam animadamente à sua frente se terem dignado dar atenção ao solícito segurança. O narrador foi beneficiado com uma senha “Triagem Qualificada T085, 3 senhas de tolerância” é bonito isto da tolerância…

O narrador senta-se e é por isso que escreve sentado numa das cadeiras de madeira e metal pintado de preto. Há três filas compridas de cadeiras em plateia voltadas para o balcão e o narrador está na última, junto à parede. O balcão comprido em L tem nove postos de atendimento com senhoras sentadas por trás de monitores de computador pretos. Continuam a ser senhoras. No posto/guichê 4 está a habitual senhora de que o narrador não gosta nada por ter assistido, numa ocasião, a uma situação em que a senhora foi particularmente desagradável para um senhor utente desempregado. Por baixo dos números suspensos 5 e 7 não há ninguém a atender. O narrador tem uma senha “T” e repara, no ecrã que existem seis letras que designam seis tipologias de atendimento, A, B, D, N, T e FA, e estranhou não terem um alinhamento meramente alfabético. Mistérios.

O narrador repara que, apesar do vento desinibido e fresquinho que faz lá fora, aqui dentro sente-se um calor crescente e até uma senhora do outro lado da sala, visivelmente cigana, toda vestida de preto e de lenço atado à cabeça, se abana freneticamente com os papéis que tem na mão. O narrador sente também uma confusão de odores provenientes, cortesia do vento, dos corpos que enchem a sala. E se isto parece normal para quase toda a gente, não o é para o narrador que em virtude de uma pouco virtuosa condição otorrinocoisa, tem poucos momentos de lucidez olfactiva.

O narrador esta aqui à espera de fazer a sua reinscrição como, de novo, desempregado, a fim de poder beneficiar do extraordinário subsídio, coisa que antes era tratado dentro do “sistema” pelo centro de desemprego e que agora, admirável mundo novo, implica vir aqui fazer a inscrição presencial (ia escrevendo presidencial, hum… que disparate).

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