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by cidadão josé

O narrador está sentado numa das cadeiras verdes do centro de desemprego a escrever no caderninho de capa zebrada pousado sobre a perna direita cruzada sobre a esquerda e pensa que há um ano que não punha os pés em tal local. O local está na mesma mas está diferente, agora todas as filas de cinco cadeiras de plástico verde montadas numa estrutura de metal preto estão voltadas para a frente de quem entra, porta ao canto direito, o que dá à sala um ar de plateia, acentuado pelo facto de em frente haver dois grandes ecrãs planos, um, à esquerda, o habitual quadro onde passam os números que indicam a nossa vez para o respectivo gabinete assinalado por uma letra, e um outro que é apenas uma televisão. Como ainda é páscoa e na televisão está a passar um programa religioso, a sala plateia faz lembrar ao narrador uma assembleia de fiéis, talvez evangélicos, em plena cerimónia religiosa, embora sem cantos nem palminhas.

Outra mudança na sala é a deslocação da secretária do segurança com o respectivo segurança para o canto oposto, à esquerda do ecrã dos números, com o respectivo dispensador de papelinhos alfanuméricos. O do narrador é o A166. A sala está cheia. O narrador sentado à direita da sala – estando de frente para o ecrã porque se não é à esquerda – junto à parede, volta-se para ver melhor a sala e os pacientes e repara que por trás dele narrador, ou ao fundo à esquerda de quem entra, estão duas máquinas dispensadoras de bebidas e comidas: sandes, bolos, chocolates e iogurtes. O narrador acabou de almoçar pelo que o seu interesse pelas máquinas é nulo. Na fila das cadeiras à frente do narrador, duas cadeiras à esquerda, está sentada uma mulher jovem com o cabelo tingido – pelo menos pensa que possa ser tingido pois não lhe parece natural – de vermelho, um vermelho mais cor de vinho, granada, que é igual à cor da camisa do homem sentado à sua direita. De vez em quando entra um homem na sala e declama em voz alta um nome e toda a gente vira as cabeças na sua direcção. O narrador não, o narrador não está cá por nenhuma convocatória, veio por iniciativa própria, para esclarecer algumas dúvidas relacionadas com o facto de o narrador ir ficar desempregado daqui a alguns dias, porque o seu contrato termina no fim do mês, deste mês, e depois como é que é? papéis, burocracia, e subsídio, claro. A164, está quase. Na televisão grande que é mesmo televisão, o ecrã enche-se com as palavras “A FÉ DOS HOMENS”… porra…

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