[trinta e sete]

by cidadão josé

Fevereiro. Frio e um solinho de Primavera. Nas ruas umas crianças pequenas mascaradas que o carnaval é já neste fim-de-semana. O narrador sentado numa das cadeiras verdes de centro de desemprego. O narrador voltou a receber uma carta/convocatória por ter faltado (falta de comparência) ao dever de apresentação quinzenal. É a segunda vez e tal como na anterior, o narrador não faltou a coisa nenhuma. Avisado pela experiência foi verificar os papéis comprovativos das comparências que também indicam a próxima apresentação. Analisa-os um a um até que descobre, tal como na vez anterior, que as senhoras da segurança social fizeram asneira, assinalaram mal o dia da apresentação e a informação informática não chega ao centro de desemprego. Uma vez é lapso, duas já é incompetência, porra.

A sala está cheia e quente. O narrador despe o casaco e sente-se a transpirar por baixo da camisola de algodão grossa. O narrador troca de óculos e observa a sala. Repara uma vez mais que esta sala cheia é uma amostragem muito próxima do país, a proporção dos géneros, as diferenças étnicas e etárias e, como dizer, as diversidades sócio-culturais ou lá como é que isso se diz agora. Todos unidos pelo desemprego que o nosso governo gosta de nivelar as pessoas. A sociedade sem classes, todos desempregados. Mas por enquanto ainda nota diferenças, naquelas pequenas coisas em que se nota, na roupa, nos óculos, nos gestos, nos modos, no tom da voz, na maneira de falar, nos sapatos, no livro que se traz para empatar a sala de espera, no modo de atender o telemóvel, como se mastiga pastilha elástica, na forma como se fala às crianças e como estas gritam ou não, nos pequenos nadas. Partículas subatómicas de somos feitos…

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