[trinta e quatro]

by cidadão josé

O narrador está sentado numa cadeira de madeira e aço, de fundo redondo e costas em V fechado em cima e aberto em baixo, se calhar nem é bem em vê, mas com um bocadinho de boa vontade até pode ser. Entretanto chega um amigo de que estava à espera e lá se vai esta narrativa, ainda por cima num local novo por estrear…

Bom, mas para não se perder a página, está agora o narrador, no dia seguinte ao dia da narrativa interrompida, num dos cafés habituais, já antes pormenorizadamente narrado, pelo que passa à frente a descrição do espaço.

O narrador franze o semblante num esforço de recordar o que ia narrar no dia anterior, o da cadeira com as costas em, quase, vê. Lembra-se que tinha ido à Segurança Social fazer a prova de vida e que aí não escreveu nada porque, coisa rara, foi logo atendido. Lembra-se também que quando lá entrou a sua atenção foi desviada por dois factores de natureza distinta: o primeiro é que, logo à entrada do dito Centro, do lado esquerdo, está a secretária do segurança e, por trás desta, a máquina dispensadora de papelinhos alfanuméricos, e que, ao contrário de todos os outros locais do mundo, é preciso pedir a um dos afáveis seguranças (são dois, estão lá à vez) pelo respectivo papelito, o que só será obtido depois de este ter esmiuçado a diligência do utente, por exemplo, na maquina há vários botões ao lado de uma faixa onde está escrito o assunto, “Atendimento Geral”, “Emprego” e outras, ora, se o narrador diz: emprego, porque é que o raio do homem fardado precisa de pormenores?! de modo que o narrador diz sempre “Emprego” e o segurança pergunta sempre, “é para a apresentação?” ao que o narrador abana quase imperceptivelmente a cabeça num aceno majestático, enfim…

A segunda coisa a conquistar assim mais demoradamente a atenção do narrador (mas ainda mais do que a primeira, rotineira) foi o facto de a sala estar invadida por carrinhos de bebé, como uma floresta de anões com rodas, o que obrigava as pessoas a deslocarem-se em valsa ou slalom, conforme fossem mais atléticas ou dançarinas… O narrador conseguiu um lugar sentado na fila da frente, entalado entre duas terríveis cadeirinhas com bebés, felizmente adormecidos. Pensando bem, deviam estar todos a dormir, é que nem a mais ligeira brisa de ruído exalou daquela multidão de cidadãos sub2 enquanto lá esteve dentro.

Como já tinha narrado mais acima, o tempo de espera foi curto pouco. Depois de se sentar, o número do narrador surgiu no ecrã com o som habitual, e aqui o narrador pensa que deveria haver uma palavra ou expressão para designar a emergência em simultâneo de um som e de um número, um efeito que é ao mesmo tempo sonoro e visual, como os foguetes nas festas, mas com cor, ruído e números …

Continuando, o narrador levantou-se e dirigiu-se ao segmento de balcão indicado no ecrã/televisão onde, do outro lado estava, como habitualmente, uma senhora funcionária. E é aqui que queria chegar com esta conversa toda. A senhora, do outro lado, ergue para o narrador uma cabeça mastigante, e mais, consegue o extraordinário efeito de falar e mastigar em simultâneo, ruminantemente, uma enorme pastilha elástica, húmida e cor-de-rosa a fumegar um hálito de morangos químicos… o narrador até é um narrador tolerante e pacífico, mas, confessa aqui que ninguém o lê, só lhe apeteceu foi enfiar os dedos na boca da senhora, extrair a pastilha, esticá-la em rede por todas as direcções e colá-la harmoniosamente na permanente loira de tão diligente funcionária…

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