escrivaninha

do cidadão josé, josé julião, portanto

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O narrador está sentado numa cadeira de plástico, não, não parece ser plástico, deve ser acrílico, transparente, uma peça única dobrada em ângulo recto que faz de costas e assento ao mesmo tempo, assente sobre uma estrutura de aço em tubo quadrado que são as pernas. O narrador escreve enquanto espera alguém, mas do que quer falar é de sonhos. Do estranho sonho que teve esta noite que lhe deixou a cabeça tão zonza que ainda sente as moscas ou traças a voar à volta e a atazaná-lo com os zumbidos das asas.

Esta noite o narrador sonhou com, como dizer? com biomáquinas. Quer dizer, uns aparelhos orgânicos que à falta de um nome melhor pensado – ou que provavelmente nem deve ter sido inventado – só lhe ocorre chamar de biomáquinas. É que o raio dos aparelhos, para além de fazerem uma série de coisas incríveis, têm sentimentos e caprichos e tudo…

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O narrador está mais uma vez sentado num dos conjuntos de quatro cadeiras e uma mesa, alinhados na horizontal na mesma estrutura de metal preto do centro de segurança social. Está aqui para fazer a prova de vida e, espera francamente, que seja a última prova de vida, pelo menos deste ano. A sala está cheia como sempre, mas isto é a segurança social e o motivo de comparências dos utentes/clientes é variado. Muitos estarão, como o narrador, para a apresentação quinzenal que o seu papelinho é o N061.

Dito isto, ou escrito, para ser mais rigoroso, ao narrador não lhe apetece narrar mais nada, de modo que fica assim meio parado a olhar para as pessoas, com a caneta no ar em suspenso como uma sentença…

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O narrador está sentado numa cadeira de madeira com o caderninho de capa zebrada assente numa mesa também toda ela em madeira. (o narrador pensa há quanto tempo não narra aos ouvidos deste caderno e não se lembra) Cadeira e mesa, com outras iguais, estão dentro, ao fundo, de um estabelecimento que é uma coisa que mistura um café com loja de artigos de cozinha e snack bar vegetariano e… olha, chegou o cidadão que…

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[trinta e sete]

Fevereiro. Frio e um solinho de Primavera. Nas ruas umas crianças pequenas mascaradas que o carnaval é já neste fim-de-semana. O narrador sentado numa das cadeiras verdes de centro de desemprego. O narrador voltou a receber uma carta/convocatória por ter faltado (falta de comparência) ao dever de apresentação quinzenal. É a segunda vez e tal como na anterior, o narrador não faltou a coisa nenhuma. Avisado pela experiência foi verificar os papéis comprovativos das comparências que também indicam a próxima apresentação. Analisa-os um a um até que descobre, tal como na vez anterior, que as senhoras da segurança social fizeram asneira, assinalaram mal o dia da apresentação e a informação informática não chega ao centro de desemprego. Uma vez é lapso, duas já é incompetência, porra.

A sala está cheia e quente. O narrador despe o casaco e sente-se a transpirar por baixo da camisola de algodão grossa. O narrador troca de óculos e observa a sala. Repara uma vez mais que esta sala cheia é uma amostragem muito próxima do país, a proporção dos géneros, as diferenças étnicas e etárias e, como dizer, as diversidades sócio-culturais ou lá como é que isso se diz agora. Todos unidos pelo desemprego que o nosso governo gosta de nivelar as pessoas. A sociedade sem classes, todos desempregados. Mas por enquanto ainda nota diferenças, naquelas pequenas coisas em que se nota, na roupa, nos óculos, nos gestos, nos modos, no tom da voz, na maneira de falar, nos sapatos, no livro que se traz para empatar a sala de espera, no modo de atender o telemóvel, como se mastiga pastilha elástica, na forma como se fala às crianças e como estas gritam ou não, nos pequenos nadas. Partículas subatómicas de somos feitos…

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[trinta e seis]

Era uma vez um narrador que narrava sentado em mesas de cafés e estabelecimentos similares (mesas isto é, cadeiras junto a mesas, dizemos mesas mas referimo-nos sempre a um conjunto de pelo menos uma mesa e uma cadeira, como uma família monoparental, porque, de facto, nas mesas não se senta ninguém, quer dizer, nos cafés e restaurantes e isso, porque em casa de cada um, cada um é que sabe onde se senta e se uma pessoa quiser sentar-se nas mesas senta-se e ninguém tem nada a ver com isso, o próprio narrador, aqui há muitos anos, tinha o hábito de se sentar na mesa quando expunha a matéria aos seus alunos quando tinha alunos, quer dizer, sentava-se naquela mesinha que era a secretária do professor e que costumava estar assim quase ao lado esquerdo da sala para quem estava virado para o quadro quando havia quadro, que agora nem sabe bem como é, parece que aquilo é tudo computadores. Pois então, dizia o narrador, nessas ocasiões costumava sentar-se, mais um apoiar-se, na secretária para falar com os alunos, e eles à frente sentados em cadeiras. Era assim.) quase sempre a beber café, mas isso não constitui regra, depende. Gostava de se sentar em lugares, digamos estratégicos, junto a janelas ou portas, para poder observar a rua e o estabelecimento ao mesmo tempo, ver quem passa lá fora e o que se passa cá dentro, mas isso também não constitui regra, às vezes só quer escrever e nem repara…

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v i n d i m a s

Lá em baixo os homens despejam enormes baldes de plástico (sem o glamour dos velhos cestos de verga) na goela do reboque. O tractor equilibra-se como pode pela encosta abaixo, o sumo a escorrer, num rasto de Ariane, traça o caminho da adega. As uvas, ubérrimas de sol, vão ser esmagadas, ainda, por pés que as calcam como quem dança ou quem procura o futuro num corpo esventrado entregue em sacrifício. Os bagos transformam-se em mosto, sangue sugado da terra que tinge e inebria até adormecer de cansaço, sono tumultuoso de crisálida a fermentar no escuro mineral das talhas. A fermentação é o acto que consagra a transubstanciação do suor na substância do vinho.

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[trinta e cinco]

O narrador está, de novo, sentado, cadeira de madeira e aço, mesa quadrada encostada a outra mesa quadrada igual, mas isso agora não lhe interessa. Tem o caderninho de capa zebrada aberto à frente, a caneta – a Roting Tikky, preta – na mão, o café já metade bebido na chávena pousada sobre o pires branco e rosa em tons geométricos – na chávena ainda há roxo, talvez para a distinguir do pires. Acaba o último gole que lhe deixa na língua algumas borras de café que retira com o polegar e o indicador da mão esquerda. Não gosta nada de borras de café no fim do café. Ainda se soubesse prever o futuro no fundo da chávena, ler os números do euromilhões ou isso, mas não, e pede um bagaço. Meio bagacinho para aconchegar o café, bebido na chávena do café. O bagaço é daquele branquinho, caseiro, guardado numa garrafa de uísque por baixo do balcão, não vá algum inspector diligente pedir a factura no afã patriótico de salvar a economia do país.

(pausa)

O narrador aqui distraiu-se e esqueceu-se de escrever o que ia escrever. Mas o que ia escrever antes de se pôr para aqui a falar de cafés e bagaços era que, justamente, não tinha nada para dizer. O narrador quando entrou no café vinha mesmo cheio de boas intenções para narrar uma narrativa assim toda literária e interessante, e senta-se, começa a escrever e, mais uma vez, não lhe ocorre nada para narrar. E um narrador sem narrativa faz tanto sentido como a irreversibilidade de um ministro que continua, ou quase…

O narrador ajusta melhor os auscultadores nos ouvidos para não se distrair com a conversa das duas mulheres que estão por trás dele, e continua a pensar o quanto gostava de ter assunto para uma narrativa. Distraído, leva a chávena à boca para mais um gole de bagaço e a chávena vazia. O copinho também… o narrador fixa seriamente a página amarelada e, com um encolher de ombros, resolve pedir outro bagaço.

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[trinta e quatro]

O narrador está sentado numa cadeira de madeira e aço, de fundo redondo e costas em V fechado em cima e aberto em baixo, se calhar nem é bem em vê, mas com um bocadinho de boa vontade até pode ser. Entretanto chega um amigo de que estava à espera e lá se vai esta narrativa, ainda por cima num local novo por estrear…

Bom, mas para não se perder a página, está agora o narrador, no dia seguinte ao dia da narrativa interrompida, num dos cafés habituais, já antes pormenorizadamente narrado, pelo que passa à frente a descrição do espaço.

O narrador franze o semblante num esforço de recordar o que ia narrar no dia anterior, o da cadeira com as costas em, quase, vê. Lembra-se que tinha ido à Segurança Social fazer a prova de vida e que aí não escreveu nada porque, coisa rara, foi logo atendido. Lembra-se também que quando lá entrou a sua atenção foi desviada por dois factores de natureza distinta: o primeiro é que, logo à entrada do dito Centro, do lado esquerdo, está a secretária do segurança e, por trás desta, a máquina dispensadora de papelinhos alfanuméricos, e que, ao contrário de todos os outros locais do mundo, é preciso pedir a um dos afáveis seguranças (são dois, estão lá à vez) pelo respectivo papelito, o que só será obtido depois de este ter esmiuçado a diligência do utente, por exemplo, na maquina há vários botões ao lado de uma faixa onde está escrito o assunto, “Atendimento Geral”, “Emprego” e outras, ora, se o narrador diz: emprego, porque é que o raio do homem fardado precisa de pormenores?! de modo que o narrador diz sempre “Emprego” e o segurança pergunta sempre, “é para a apresentação?” ao que o narrador abana quase imperceptivelmente a cabeça num aceno majestático, enfim…

A segunda coisa a conquistar assim mais demoradamente a atenção do narrador (mas ainda mais do que a primeira, rotineira) foi o facto de a sala estar invadida por carrinhos de bebé, como uma floresta de anões com rodas, o que obrigava as pessoas a deslocarem-se em valsa ou slalom, conforme fossem mais atléticas ou dançarinas… O narrador conseguiu um lugar sentado na fila da frente, entalado entre duas terríveis cadeirinhas com bebés, felizmente adormecidos. Pensando bem, deviam estar todos a dormir, é que nem a mais ligeira brisa de ruído exalou daquela multidão de cidadãos sub2 enquanto lá esteve dentro.

Como já tinha narrado mais acima, o tempo de espera foi curto pouco. Depois de se sentar, o número do narrador surgiu no ecrã com o som habitual, e aqui o narrador pensa que deveria haver uma palavra ou expressão para designar a emergência em simultâneo de um som e de um número, um efeito que é ao mesmo tempo sonoro e visual, como os foguetes nas festas, mas com cor, ruído e números …

Continuando, o narrador levantou-se e dirigiu-se ao segmento de balcão indicado no ecrã/televisão onde, do outro lado estava, como habitualmente, uma senhora funcionária. E é aqui que queria chegar com esta conversa toda. A senhora, do outro lado, ergue para o narrador uma cabeça mastigante, e mais, consegue o extraordinário efeito de falar e mastigar em simultâneo, ruminantemente, uma enorme pastilha elástica, húmida e cor-de-rosa a fumegar um hálito de morangos químicos… o narrador até é um narrador tolerante e pacífico, mas, confessa aqui que ninguém o lê, só lhe apeteceu foi enfiar os dedos na boca da senhora, extrair a pastilha, esticá-la em rede por todas as direcções e colá-la harmoniosamente na permanente loira de tão diligente funcionária…

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[trinta e três]

Dezembro. Dezembro e o narrador sentado numa das cadeiras de madeira e metal do centro de Segurança Social. A fazer a “prova de vida” uma vez mais. O narrador pensava que por esta altura já não precisaria de vir aqui de quinze em quinze dias fazer a apresentação quinzenal. Mas o narrador é ingénuo e um tipo, como dizer? paradoxal: por um lado é pouco imaginativo, por outro, pouco realista, o que é uma faixa estreita para se viver, um arame escorregadio. Burocracias, inércias e outras porcarias, atravessam-se no caminho como excrementos de cão nos passeios da cidade. Enfim…

E cá está ele sentado mais uma vez, a olhar para o painel dos números e com o papelito na mão. N057. Desta vez a espera fá-lo esperar mais do que o costume. Repara que há uma árvore de natal no canto do balcão, onde este faz um L. Uma árvore de natal verde, de plástico, com bolas vermelhas e luzes verdes e vermelhas que acendem e apagam em três ritmos alternados, tem ainda umas fitas largas vermelhas e translucidas e, ao cimo, uma grande estrela vermelha como um ponto num i. Reparando melhor, e troca de óculos, há também uma luzinhas azuis numa fita de luzes mais abaixo.

Ao lado, um homem vestido de castanho, com botas castanhas, cabelo castanho e um chapéu castanho, a lembrar um tronco de árvore sem folhas fala com a funcionária em frente, do outro lado do balcão. Entretanto acende-se o número do narrador no ecrã de fundo verde e este dirige-se ao pedaço de balcão que tem por cima uma roda de plástico pendurada num tubo metálico, uma roda transparente, depois branca, com um desenho verde e vermelho, amarelo ao centro onde se destaca um número grande e preto. Por baixo, a senhora do atendimento com um dedo tatuado em anel, repara ainda o narrador antes de fechar o caderninho…

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perfume

É estranha a cor da terra nestes dias em que o calor desenha fantasmas de luz a meio caminho do horizonte e o chão exala um cheiro a lábios gretados e ao uivo surdo da sede. Ao longe, o canto das cigarras incendeia as asas dos pássaros que explodem no ar com um ruído de ossos partidos e folhas secas. O alcatrão derrete-se como chocolate negro, lodo nos sapais que agarra pés incautos e os puxa e afunda no hálito a ervas podres e enxofre dos pântanos. É com este tempo que se faz o sal, no rosto dos homens, nas axilas das mulheres.

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diário gráfico

Ao meu lado, uma mulher jovem pousa na perna azul uma mão de unhas pintadas em diagonal vermelho, brilhante. No anelar, um anel de metal branco e liso acentua um tom cuidadosamente misterioso. É bonita mas não gosto dos sapatos.

Do outro lado, um grupo de homens estrangeiros, de pele muito escura e traços quase europeus (seja lá isso o que for), asiáticos, talvez do Bangladesh, seguram nas mãos maços de papéis oficiais que encerram o seu futuro de cidadãos residentes neste país quase europeu.

Na televisão passa o programa da tarde que é igual ao programa da manhã, só que é à tarde. Donas de casa (nunca gostei desta expressão) e reformados de ambos os géneros batem palminhas ao ritmo de uma música que não oiço, uma mulher gorda e muito loura canta e a anfitriã rege tudo com um sorriso maternal e triunfante de abelha-mestra, de cerimónias.

Nos auscultadores enfiados nos meus ouvidos, Piazzolla e Gary Burton esgrimam instrumentos, num duelo feito de cumplicidades, e é estranho, no enorme ecrã à minha frente, ver aquelas pessoas a moverem-se ao ritmo da distância que separa o planeta onde vivem da realidade paralela onde eu estou sentado. Burton martela as notas a atapetar os passos elegantes do bandoneon num bailado perfeito que contrasta com as imagens da cantora loira e gorda a ensaiar bamboleios de pato nos saltos muito altos das suas botas de cano muito alto.

De repente, os números no monitor passam inesperadamente rápidos – gente que desistiu, com certeza – e a minha vez está quase a chegar.
Sou o 164. É agora.
Afinal não é aqui, é no outro Registo.

Olha a minha vida!…

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Vem comigo, porque é que não vens comigo?

Não foi.
Separaram-se ali. Devagar, como quem quer congelar o momento.
Espera-os um outro futuro que este não é compatível.
“Teremos sempre Lisboa e a marca dos teus dentes no meu coração” disse ela.
Ele disfarça uma lágrima com uma espécie de bocejo, a mão no rosto a esconder o passado – sabe que não são compatíveis e não há nada a fazer, é o regulamento.
“Vejo o teu rosto na moldura da almofada, gravei-o numa fotografia que trago comigo, na parte detrás dos olhos” não disse ele e olhou os barcos.

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a cidade maquilhada

Pintar a cidade de cores fortes. Exagerar. Aplicar camadas de base, cobrir manchas, rugas, imperfeições, olheiras e medos. Realçar com lápis, contornos e caminhos, becos e logradouros. Usar rímel para acentuar as sombras dos prédios, quiosques e antenas. Para parques e jardins usar um blush, o melhor é escolher um tom intenso e versátil entre o rosa choque e o pêssego histérico. Nos rios, lagos e fontes, deixar a tinta correr, livre. Realçar a beleza das janelas, com tons que complementem a cor das mesmas, ou que as contrastem vivamente. Pintar os olhos e o céu. Usar batons ou gloss, a gosto, de forma abundante e indiscriminada. E tinta, muita tinta no chão das avenidas.

Entrar na cidade, sem mapa, e perder-me intensamente nas ruas.

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e s t u á r i o

É no estuário que o rio se aquieta. Eu não.
É lá que entrega as águas e se rende. Eu não.

Eu entorno-me em ti, p’ra chegar ao coração.

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um rumor de asas

Sente-se a sua passagem na reverberação do ar, uma leve mudança na direcção do vento. Raramente sentimos a sua presença, só perceptível a nível molecular, como uma intuição ou uma descida de temperatura. Quase não deixam rasto. São como aqueles sismos tão suaves que só são registados por alguns animais ou dispendiosos instrumentos electrónicos, sofisticados e precisos. Mas são os ossos – um frio nos ossos, um arrepio agudo a descer pela coluna – quem melhor os detecta.

Dizem por aí que são belos e luminosos, de uma elegância infinita como a das estátuas antigas. Dizem também que nos ajudam e nos protegem e que são mensageiros de boas novas, de um futuro radioso. A verdade é que perscrutam os homens com olhos penetrantes, a arder de inveja da carne. Esvoaçam por aí em silêncio, vaidosos das suas asas. São sinais de desgraça, arautos do infortúnio. Como abutres, sobrevoam em bandos, cenários de catástrofes. A verdade é que a sua beleza é fria e perversa. E escondem na doçura do rosto o vício da queda.

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o preço das coisas

Queres comprar esta pedra?
– Não sei, deixa-me vê-la melhor.
É uma pedra muito valiosa.
– Tenho a certeza que sim. E quanto é que custa essa pedra?
É um bocado cara…
– Pois, é normal, se é uma pedra preciosa. Tens a certeza que a queres vender?
… hum …
– Se a venderes ficas sem ela. Queres mesmo ficar sem a pedra?
Se calhar é melhor não…
– Se calhar. Posso tirar-te uma fotografia?
Podes. Com a pedra!!
– Claro, mostra-a lá.
– “tchiik”
– Queres ver como ficou?
Quero.
– O que achas, parece-te bem?
Sim, vê-se bem a pedra.

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compromisso

o amor não faz prisioneiros, disseste-me tu um dia. na boca o sangue escorria ainda e os teus olhos em brasa marcavam-me a pele como os ferros às reses. lá fora o temporal latejava-me as têmporas. mas o amor não se rende, disse eu, a febre a queimar os lençóis. um relâmpago encheu o quarto de luz, acendeu no meu corpo um mapa de estigmas, os sulcos fundos das tuas unhas. o ar cheirava a suor e a sexo e ao cheiro a pólvora das trovoadas. a tua voz rouca emagreceu num rasto de mágoa (ou sou eu a desejar que assim tenha acontecido) quando disseste, o amor não é eterno, sabes, gasta-se, como o desejo, só permanece a vontade que temos dele. mas… comecei eu e esmagaste-me a boca com um beijo, a língua morta. acrescentaste ainda, não, não tens razão, o que resta do amor é o compromisso… e é essa a razão porque te deixo, meu amor.

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