escrivaninha

do cidadão josé, josé julião, portanto

Todos os dias são hoje

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Hoje o Sol amanheceu com a pontualidade habitual

Hoje choveu nos sítios em que choveu e houve cheias em dois ou três

Hoje faltou a luz em muitas casas e estragou-se a comida no frigorífico

Hoje um presidente assinou um decreto urgente e outro dispensável

Hoje o avô foi a enterrar

Hoje ladraram cães e uma galinha foi morta para o almoço

Hoje houve pessoas que não comeram

Hoje um pai beijou o filho pela primeira vez

Hoje aterraram aviões cheios de turistas ruidosos

Hoje afogaram-se mais pessoas no Mediterrâneo

Hoje houve uma inauguração com pompa e circunstância

Hoje vão ser dadas mãos numa sala de cinema

 

             Mas hoje é dia de gostar de ti

             Hoje é dia de gostar de ti

             Hoje é dia de gostar de ti

 

Hoje um comboio riscou a paisagem

Hoje dois homens que não se conheciam foram abatidos ao cruzarem a fronteira

Hoje quando os bombeiros desencarceraram os corpos já era tarde demais

Hoje caiu uma laranja do ramo de uma laranjeira e ninguém ouviu

Hoje foi baptizado o filho de um carpinteiro

Hoje muitas mães deram à luz

Hoje uma cobra comeu um rato

Hoje uma casa foi assaltada num rasto de estilhaços de vidro

Hoje um homem recebeu uma notícia do médico

Hoje uma mulher sorriu e outra chorou quando lhe faltaram as regras

Hoje a gata da vizinha pariu uma ninhada preta e branca

Hoje uma neta foi visitar a avó ao lar

 

            Mas hoje é dia de gostar de ti

            Hoje é dia de gostar de ti

            Hoje é dia de gostar de ti

 

Hoje a seca matou mais uma árvore

Hoje arde uma floresta e as pessoas fogem do fogo

Hoje um polícia corrupto prendeu um criminoso violento

Hoje uma mulher gritou de prazer

Hoje uma mulher foi morta pelo marido

Hoje nasceram crianças em todos os países

Hoje fizeram-se despedimentos para revitalizar a empresa

Hoje suicidaram-se homens em todos os continentes e mulheres também

Hoje cortaram o clitóris a uma menina

Hoje um médico desfaleceu de exaustão

Hoje os trabalhadores fizeram greve

Hoje sonhei contigo

 

           Mas hoje é dia de gostar de ti

            Hoje é dia de gostar de ti

            Hoje é dia de gostar de ti

 

Hoje um orador orou numa conferência e alguém bocejou na plateia

Hoje entrou mais um doente para a sala da cirurgia

Hoje um ministro almoçou com um banqueiro

Hoje faltou o pão

Hoje cozeu-se pão

Hoje um político discursou contra os imigrantes

Hoje foram disparadas armas de vários calibres

Hoje um jogador falhou um golo

Hoje um ditador ditou ordens

Hoje um coro cantou afinado e um solista recebeu uma ovação

Hoje um preso saiu da cadeia

Hoje houve um casamento na aldeia e ninguém tocou o sino

 

           Mas hoje é dia de gostar de ti

            Hoje é dia de gostar de ti

            Hoje é dia de gostar de ti

 

Hoje bebés foram amamentados

Hoje o papa acenou à multidão

Hoje caiu o último dente de leite a uma criança

Hoje uma menina casou com um homem velho

Hoje mais uma espécie animal ficou em vias de extinção

Hoje um violador comungou a hóstia consagrada

Hoje iniciou-se uma tradição

Hoje homens foram vendidos num país não muito distante

Hoje foram choradas lágrimas de felicidade

Hoje brindou-se ao centenário do bisavô

Hoje um homem de colete azul fez-se explodir no meio de uma multidão

Hoje o Sol anoiteceu com a pontualidade habitual

 

           Mas hoje é dia de gostar de ti

            Hoje é dia de gostar de ti

            Hoje é dia de gostar de ti

 

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Janela quase discreta

É discreta a janela, o homem não.
Pudesse ele ter raios X nos olhos, em vez de holofotes, olhar de broca que perscruta e se põe à escuta, atento e alerta para a casa deserta, ou talvez não.
É discreta a janela, mas tu não, tu olhas lá bem no fundo, queres chegar ao coração.

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O narrador está sentado numa das cadeiras em plástico cinzento sobre metal preto do centro de saúde e hoje é dia dos namorados. Na sala de espera, há dois casais, um, a olhar, ela para um tablet e ele para um smartphone, ainda não pronunciaram uma palavra, o outro casal, ela a dormir e ele a olhar assim como quem olha para o infinito, ou o vácuo (depende do que lá houver), que é uma maneira de olhar para dentro vendo para fora. Há ainda um senhor bastante mais idoso ao lado de uma senhora de idade semelhante, mas o narrador não consegue perceber se são ou não um casal, não falam, nem com a voz nem com os corpos, como aqueles casais que comem lado a lado no restaurante com os olhos na televisão. Provavelmente nem precisam de falar em voz alta porque o fazem por telepatia.

Da parede, uma voz feminina chama um nome de mulher e a rapariga do tablet levanta-se, o rapaz segue-a sem uma palavra, se calhar nem são um casal. O narrador estava a partir do princípio que um par de pessoas juntas, do sexo oposto, formam um casal e pensa, com um quase sorriso interior, que mesmo sem querer um gajo é levado por estereótipos ou assim. De facto, na sala de espera, não há um único par de pessoas que aparente minimamente uma dinâmica de casal, muito menos de casalinho em dia de namorados. Se calhar é porque estamos no centro de saúde e as preocupações, ou as dores, são outras.

Na sala, de espera, as pessoas vão mudando, entram quando calha e saem quando são chamadas pela voz da parede. A maioria é idosa, muito mais mulheres do que homens. Entram mais pessoas. Um casal visivelmente casal, de mão dada, ah ah pensa o narrador, mas depois repara que a senhora tem dificuldades em andar e o ah ah torna-se menos triunfante, mas conversam entre si, linguagem corporal de casal pelo menos.

O narrador reflecte (vejam lá) no que estão a fazer, a observar possíveis casais, e pensa que isso se deve ao facto de ter visto no telejornal do almoço um casalinho apaixonado há mais de cinquenta anos, foi bonito. Agora olha as pessoas, à procura de sinais, como verrugas ou manchas do fígado como provas de paixão, afinal é dia dos namorados, não é?

Jpeg

cardiologia emocional

tu não sabes, mas tenho outro coração, um coração azul todo em voltinhas e volutas, um coração azul cheio de curvas, azuis, e rugas azuis, uma por cada calafrio que faz estremecer o meu coração azul, num sismo cardiológico, quando tu me falas ao ouvido e se me arrepia a pele, e os pelos da nuca são girassóis voltados para ti, o teu hálito a embrulhar o grão da voz, como rebuçados em papel furta-cores, e a enviá-lo pelo canal do ouvido até ao meu coração azul felpudo que ronrona tremuras de satisfação, enquanto engole o som das tuas palavras embrulhadas, uma a uma, e saboreia, no som, o eco do teu cheiro com o veludo da língua dos cães que existe escondida nos corações azuis. só o sangue é vermelho

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Mais do que chuva

O vento lambeu as nuvens bem ali no meio das coxas.
E o dia deu em chover.

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esta coisa da luz

que tempos que aqui não escrevo mas, sabem, a coisa não é nada fácil. As palavras têm aquela mania orgulhosa de não se deixarem agarrar. Descobri, há muito tempo já, que, como toda a gente sabe, nós não escolhemos as palavras, são as palavras que nos escolhem. Falo das palavras escritas mais do que das outras. Se bem que, também é verdade, demasiadas vezes dizemos aquilo que não queremos, como uma arma que se dispara sozinha…

Mas escrever é pior. Os dedos no teclado, ou a ponta do lápis, tecem palavras que tantas vezes nos fogem ou se imiscuem no texto sem serem convidadas, com aquela lata das visitas inconvenientes. Ou então amuam num beicinho de estrela de cinema caprichosa. Diz que gostam de ser seduzidas, mas depois fazem-se caras. Primas-donas do seu nariz que, ora se negam ora se pavoneiam como coquettes de outros tempos.

E eu aqui a querer escrever umas coisitas para decorar a casa e ficar bem no figurino e elas a saracotearem-se por outras paragens, tão longe como silhuetas no contra-luz do pôr-do-sol “I’m a poor lonesome cowboy”…

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O poente fica lá atrás

(Alentejo, 14 de Junho 2011. 19:49.)

Qualquer dia vou aprender sobre esta coisa da luz. Tentar perceber. Porque é que aqui o céu é branco no ocaso, se por acaso ainda estava azul e brilhante, assim todo em prata dourada como um colar de pechisbeque no pescoço de uma loira platinada? (Chiça que até rima)
Mas difícil mesmo é a fronteira da luz. O equilíbrio no arame que a qualquer momento se estatela lá em baixo. Um deve e haver de luminosidades e aberturas e temperatura da luz, como se um descuido a tornasse febril. E o céu a arder sem se ralar nada com isso. Mas pronto, um dia ainda vou tentar saber – até porque gostava mesmo de descobrir como é que aquilo da luz desfaz os vampiros…

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reaches the sky

não penses que é fácil, o céu pode esperar mas tu não, não se entra assim no céu como num buraco de agulha, não sem permissão, um visto, de ouro ou platina, uma palavra dada no sítio certo, ao ouvido adequado…

não penses que é fácil se o o céu não te quer, ou os anjos, os espectros que pensam que são anjos, caídos há muito, numa queda sem vertigem nem virtude, asas de arame farpado a tapar as portas do céu como nas profundezas dos infernos…

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“A quoi ça sert l’amour?”

podem responder se quiserem. se puderem. ou se ousarem. eu por mim não lhe vejo interesse nenhum. não se come. não se bebe. não se respira. não produz nada. não serve para nada. é como a arte. uma inutilidade.

(reflexão antiga, a despropósito de)

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O narrador está sentado numa das cadeiras da sala de espera do centro de desemprego e não lhe apetece nada narrar a descrição da sala. Daqui a dois dias é natal e talvez isso interfira nas narrativas, não sabe. Na sala está o narrador, o segurança brasileiro fardado, uma mulher jovem, ligeiramente loira, vestida de preto, e a televisão da direita acesa numa telenovela portuguesa. Ao lado direito da televisão uma árvore de natal com luzinhas nervosas com fitas e estrelas douradas, por baixo uns embrulhos embrulhados a fazer de prendas, como aqueles livros encadernados nas lojas de móveis ou nas estantes de alguns novo-ricos.

Nunca o narrador viu a sala tão vazia e pensa que deve ser do natal, ou então é porque já não há desempregados, só ele e a senhora quase loira, o que seria uma coisa boa para as estatísticas e isso, mas depois a porta abre-se e entra mais um grupo que ocupa as cadeiras do outro lado do corredor. A sala quase vazia e o narrador ainda à espera, com um olho no caderninho e outro na televisão da esquerda, onde deviam passar os números e não se passa nada.

Em frente as luzinhas da árvore acenam timidamente a chamar a atenção. Daqui a dois dias é natal e o narrador, sonâmbulo, só se apercebeu disso há uns poucos dias, o verão foi grande e o outono quente e isso, talvez isso. Na televisão publicidade a perfumes e depois brinquedos e outras coisas que o narrador já não reparou. A porcaria do natal e das compras e das prendas, é impossível não esbarrar com ele por todo o lado, a febre consumista a engarrafar as entradas dos centros comerciais como a evacuação de uma catástrofe… E o narrador pensa que preferia estar na confusão das compras num centro comercial do que aqui no centro de desemprego.

E aposta que a mulher jovem quase loira também…

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E qual é mesmo a palavra mágica?

palavras mágicas para tudo. Palavras exactas que, ditas de forma precisa na fórmula correcta, têm o poder de fazer quase tudo. Há palavras para transformar príncipes em sapos. Palavras para revelar segredos ocultos e ocultar segredos revelados. Palavras que ofuscam ou dissimulam. Palavras que encantam e seduzem. Palavras que confortam. Palavras que provocam a cólera ou o perdão. Palavras que iniciam guerras ou as terminam. Palavras que aumentam o brilho dos olhos. Palavras que fazem respirar mais depressa. Palavras que derretem, o teu coração. E até… palavras que ditas de forma bem dita conseguem abrir a goela às portas mais empedernidas.

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é quando as memórias te ardem nos olhos que deves olhar o fogo

e o circo é sempre a memória da minha avó e a minha mão pequenina na mão da minha avó tão pequenina a entrar na tenda enorme a escorrer todas as cores as únicas cores da minha infância naquele tempo em que tudo era cinzento tão cinzento que até o nariz vermelho dos palhaços me parecia um milagre a reluzir espíritos santos de lantejoulas ao som de chapadas em caras brancas e saxofones roucos e quentes a sair das bocas abertas dos leões montados em bicicletas impossíveis com os guiadores para a frente onde se equilibrava uma família inteira mais um cão de chapéu bicudo de palhaço rico a fazer o pino e mulheres de pernas longuíssimas a voarem no trapézio como quem desafia a gravidade da lei do cinzento em rodopios de vertigem presas pelos cabelos num único raio de cor ao longo do arame onde outro palhaço balouçava as pernas impossíveis segurando na mão um guarda-chuva minúsculo de onde caia uma chuva de confettis coloridos a inundarem a pista de uma felicidade quente e eu a olhar a minha avó os olhos da minha avó brilhantes esquecidos das cataratas e do cinzento dos dias lá fora que hoje no circo é grátis às damas e estão aqui todas as avós do mundo

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(Circo Quinito. Finais do séc.XX. Alentejo)

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O narrador acaba de entrar no centro de segurança social e espera a sua vez junto à secretária do segurança que distribui as senhas alfanuméricas dizendo ao que vai, mas só depois de duas senhoras que conversavam animadamente à sua frente se terem dignado dar atenção ao solícito segurança. O narrador foi beneficiado com uma senha “Triagem Qualificada T085, 3 senhas de tolerância” é bonito isto da tolerância…

O narrador senta-se e é por isso que escreve sentado numa das cadeiras de madeira e metal pintado de preto. Há três filas compridas de cadeiras em plateia voltadas para o balcão e o narrador está na última, junto à parede. O balcão comprido em L tem nove postos de atendimento com senhoras sentadas por trás de monitores de computador pretos. Continuam a ser senhoras. No posto/guichê 4 está a habitual senhora de que o narrador não gosta nada por ter assistido, numa ocasião, a uma situação em que a senhora foi particularmente desagradável para um senhor utente desempregado. Por baixo dos números suspensos 5 e 7 não há ninguém a atender. O narrador tem uma senha “T” e repara, no ecrã que existem seis letras que designam seis tipologias de atendimento, A, B, D, N, T e FA, e estranhou não terem um alinhamento meramente alfabético. Mistérios.

O narrador repara que, apesar do vento desinibido e fresquinho que faz lá fora, aqui dentro sente-se um calor crescente e até uma senhora do outro lado da sala, visivelmente cigana, toda vestida de preto e de lenço atado à cabeça, se abana freneticamente com os papéis que tem na mão. O narrador sente também uma confusão de odores provenientes, cortesia do vento, dos corpos que enchem a sala. E se isto parece normal para quase toda a gente, não o é para o narrador que em virtude de uma pouco virtuosa condição otorrinocoisa, tem poucos momentos de lucidez olfactiva.

O narrador esta aqui à espera de fazer a sua reinscrição como, de novo, desempregado, a fim de poder beneficiar do extraordinário subsídio, coisa que antes era tratado dentro do “sistema” pelo centro de desemprego e que agora, admirável mundo novo, implica vir aqui fazer a inscrição presencial (ia escrevendo presidencial, hum… que disparate).

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O narrador está sentado numa das cadeiras verdes do centro de desemprego a escrever no caderninho de capa zebrada pousado sobre a perna direita cruzada sobre a esquerda e pensa que há um ano que não punha os pés em tal local. O local está na mesma mas está diferente, agora todas as filas de cinco cadeiras de plástico verde montadas numa estrutura de metal preto estão voltadas para a frente de quem entra, porta ao canto direito, o que dá à sala um ar de plateia, acentuado pelo facto de em frente haver dois grandes ecrãs planos, um, à esquerda, o habitual quadro onde passam os números que indicam a nossa vez para o respectivo gabinete assinalado por uma letra, e um outro que é apenas uma televisão. Como ainda é páscoa e na televisão está a passar um programa religioso, a sala plateia faz lembrar ao narrador uma assembleia de fiéis, talvez evangélicos, em plena cerimónia religiosa, embora sem cantos nem palminhas.

Outra mudança na sala é a deslocação da secretária do segurança com o respectivo segurança para o canto oposto, à esquerda do ecrã dos números, com o respectivo dispensador de papelinhos alfanuméricos. O do narrador é o A166. A sala está cheia. O narrador sentado à direita da sala – estando de frente para o ecrã porque se não é à esquerda – junto à parede, volta-se para ver melhor a sala e os pacientes e repara que por trás dele narrador, ou ao fundo à esquerda de quem entra, estão duas máquinas dispensadoras de bebidas e comidas: sandes, bolos, chocolates e iogurtes. O narrador acabou de almoçar pelo que o seu interesse pelas máquinas é nulo. Na fila das cadeiras à frente do narrador, duas cadeiras à esquerda, está sentada uma mulher jovem com o cabelo tingido – pelo menos pensa que possa ser tingido pois não lhe parece natural – de vermelho, um vermelho mais cor de vinho, granada, que é igual à cor da camisa do homem sentado à sua direita. De vez em quando entra um homem na sala e declama em voz alta um nome e toda a gente vira as cabeças na sua direcção. O narrador não, o narrador não está cá por nenhuma convocatória, veio por iniciativa própria, para esclarecer algumas dúvidas relacionadas com o facto de o narrador ir ficar desempregado daqui a alguns dias, porque o seu contrato termina no fim do mês, deste mês, e depois como é que é? papéis, burocracia, e subsídio, claro. A164, está quase. Na televisão grande que é mesmo televisão, o ecrã enche-se com as palavras “A FÉ DOS HOMENS”… porra…

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Poema de Estar na Praia

Estou na praia.
Estou na praia e vou escrever um poema de estar na praia.
Um poema de estar na praia começa com os pés na areia.
Os pés na areia e a caneta no papel.
O vento no rosto.
No rosto e no caderno, com o vento a querer virar as páginas como um gaiato parvo.
É preciso segurar bem o caderno para contrariar o vento, dobrá-lo pela lombada, a mão, esquerda, em pinça.
Fico assim preparado para escrever um poema de estar na praia.
Os pés na areia.
A caneta no papel.
O caderno seguro contra o vento.
E um chapéu na cabeça, como a pala de um beiral sobre os olhos, a fintar o sol do Sul, inchado de tanto Verão.
Acho que agora é que é o poema de estar na praia com os pés na areia.
Depois dos pés, o mar.
Dos pés e da toalha que a maré sobe e a onda trepa sobre a toalha desprevenida.
Levar tudo mais para cima, torcer a toalha, voltar ao caderno, dobrá-lo contra o vento, a caneta sobre o papel, os pés na areia, escrever:

Poema de Estar na Praia

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