escrivaninha

do cidadão josé, josé julião, portanto

E qual é mesmo a palavra mágica?

palavras mágicas para tudo. Palavras exactas que, ditas de forma precisa na fórmula correcta, têm o poder de fazer quase tudo. Há palavras para transformar príncipes em sapos. Palavras para revelar segredos ocultos e ocultar segredos revelados. Palavras que ofuscam ou dissimulam. Palavras que encantam e seduzem. Palavras que confortam. Palavras que provocam a cólera ou o perdão. Palavras que iniciam guerras ou as terminam. Palavras que aumentam o brilho dos olhos. Palavras que fazem respirar mais depressa. Palavras que derretem, o teu coração. E até… palavras que ditas de forma bem dita conseguem abrir a goela às portas mais empedernidas.

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é quando as memórias te ardem nos olhos que deves olhar o fogo

e o circo é sempre a memória da minha avó e a minha mão pequenina na mão da minha avó tão pequenina a entrar na tenda enorme a escorrer todas as cores as únicas cores da minha infância naquele tempo em que tudo era cinzento tão cinzento que até o nariz vermelho dos palhaços me parecia um milagre a reluzir espíritos santos de lantejoulas ao som de chapadas em caras brancas e saxofones roucos e quentes a sair das bocas abertas dos leões montados em bicicletas impossíveis com os guiadores para a frente onde se equilibrava uma família inteira mais um cão de chapéu bicudo de palhaço rico a fazer o pino e mulheres de pernas longuíssimas a voarem no trapézio como quem desafia a gravidade da lei do cinzento em rodopios de vertigem presas pelos cabelos num único raio de cor ao longo do arame onde outro palhaço balouçava as pernas impossíveis segurando na mão um guarda-chuva minúsculo de onde caia uma chuva de confettis coloridos a inundarem a pista de uma felicidade quente e eu a olhar a minha avó os olhos da minha avó brilhantes esquecidos das cataratas e do cinzento dos dias lá fora que hoje no circo é grátis às damas e estão aqui todas as avós do mundo

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(Circo Quinito. Finais do séc.XX. Alentejo)

[42]

O narrador acaba de entrar no centro de segurança social e espera a sua vez junto à secretária do segurança que distribui as senhas alfanuméricas dizendo ao que vai, mas só depois de duas senhoras que conversavam animadamente à sua frente se terem dignado dar atenção ao solícito segurança. O narrador foi beneficiado com uma senha “Triagem Qualificada T085, 3 senhas de tolerância” é bonito isto da tolerância…

O narrador senta-se e é por isso que escreve sentado numa das cadeiras de madeira e metal pintado de preto. Há três filas compridas de cadeiras em plateia voltadas para o balcão e o narrador está na última, junto à parede. O balcão comprido em L tem nove postos de atendimento com senhoras sentadas por trás de monitores de computador pretos. Continuam a ser senhoras. No posto/guichê 4 está a habitual senhora de que o narrador não gosta nada por ter assistido, numa ocasião, a uma situação em que a senhora foi particularmente desagradável para um senhor utente desempregado. Por baixo dos números suspensos 5 e 7 não há ninguém a atender. O narrador tem uma senha “T” e repara, no ecrã que existem seis letras que designam seis tipologias de atendimento, A, B, D, N, T e FA, e estranhou não terem um alinhamento meramente alfabético. Mistérios.

O narrador repara que, apesar do vento desinibido e fresquinho que faz lá fora, aqui dentro sente-se um calor crescente e até uma senhora do outro lado da sala, visivelmente cigana, toda vestida de preto e de lenço atado à cabeça, se abana freneticamente com os papéis que tem na mão. O narrador sente também uma confusão de odores provenientes, cortesia do vento, dos corpos que enchem a sala. E se isto parece normal para quase toda a gente, não o é para o narrador que em virtude de uma pouco virtuosa condição otorrinocoisa, tem poucos momentos de lucidez olfactiva.

O narrador esta aqui à espera de fazer a sua reinscrição como, de novo, desempregado, a fim de poder beneficiar do extraordinário subsídio, coisa que antes era tratado dentro do “sistema” pelo centro de desemprego e que agora, admirável mundo novo, implica vir aqui fazer a inscrição presencial (ia escrevendo presidencial, hum… que disparate).

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[41]

O narrador está sentado numa das cadeiras verdes do centro de desemprego a escrever no caderninho de capa zebrada pousado sobre a perna direita cruzada sobre a esquerda e pensa que há um ano que não punha os pés em tal local. O local está na mesma mas está diferente, agora todas as filas de cinco cadeiras de plástico verde montadas numa estrutura de metal preto estão voltadas para a frente de quem entra, porta ao canto direito, o que dá à sala um ar de plateia, acentuado pelo facto de em frente haver dois grandes ecrãs planos, um, à esquerda, o habitual quadro onde passam os números que indicam a nossa vez para o respectivo gabinete assinalado por uma letra, e um outro que é apenas uma televisão. Como ainda é páscoa e na televisão está a passar um programa religioso, a sala plateia faz lembrar ao narrador uma assembleia de fiéis, talvez evangélicos, em plena cerimónia religiosa, embora sem cantos nem palminhas.

Outra mudança na sala é a deslocação da secretária do segurança com o respectivo segurança para o canto oposto, à esquerda do ecrã dos números, com o respectivo dispensador de papelinhos alfanuméricos. O do narrador é o A166. A sala está cheia. O narrador sentado à direita da sala – estando de frente para o ecrã porque se não é à esquerda – junto à parede, volta-se para ver melhor a sala e os pacientes e repara que por trás dele narrador, ou ao fundo à esquerda de quem entra, estão duas máquinas dispensadoras de bebidas e comidas: sandes, bolos, chocolates e iogurtes. O narrador acabou de almoçar pelo que o seu interesse pelas máquinas é nulo. Na fila das cadeiras à frente do narrador, duas cadeiras à esquerda, está sentada uma mulher jovem com o cabelo tingido – pelo menos pensa que possa ser tingido pois não lhe parece natural – de vermelho, um vermelho mais cor de vinho, granada, que é igual à cor da camisa do homem sentado à sua direita. De vez em quando entra um homem na sala e declama em voz alta um nome e toda a gente vira as cabeças na sua direcção. O narrador não, o narrador não está cá por nenhuma convocatória, veio por iniciativa própria, para esclarecer algumas dúvidas relacionadas com o facto de o narrador ir ficar desempregado daqui a alguns dias, porque o seu contrato termina no fim do mês, deste mês, e depois como é que é? papéis, burocracia, e subsídio, claro. A164, está quase. Na televisão grande que é mesmo televisão, o ecrã enche-se com as palavras “A FÉ DOS HOMENS”… porra…

Jpeg

Poema de Estar na Praia

Estou na praia.
Estou na praia e vou escrever um poema de estar na praia.
Um poema de estar na praia começa com os pés na areia.
Os pés na areia e a caneta no papel.
O vento no rosto.
No rosto e no caderno, com o vento a querer virar as páginas como um gaiato parvo.
É preciso segurar bem o caderno para contrariar o vento, dobrá-lo pela lombada, a mão, esquerda, em pinça.
Fico assim preparado para escrever um poema de estar na praia.
Os pés na areia.
A caneta no papel.
O caderno seguro contra o vento.
E um chapéu na cabeça, como a pala de um beiral sobre os olhos, a fintar o sol do Sul, inchado de tanto Verão.
Acho que agora é que é o poema de estar na praia com os pés na areia.
Depois dos pés, o mar.
Dos pés e da toalha que a maré sobe e a onda trepa sobre a toalha desprevenida.
Levar tudo mais para cima, torcer a toalha, voltar ao caderno, dobrá-lo contra o vento, a caneta sobre o papel, os pés na areia, escrever:

Poema de Estar na Praia

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[38 – 39 – 40]

O narrador está sentado numa cadeira de plástico, não, não parece ser plástico, deve ser acrílico, transparente, uma peça única dobrada em ângulo recto que faz de costas e assento ao mesmo tempo, assente sobre uma estrutura de aço em tubo quadrado que são as pernas. O narrador escreve enquanto espera alguém, mas do que quer falar é de sonhos. Do estranho sonho que teve esta noite que lhe deixou a cabeça tão zonza que ainda sente as moscas ou traças a voar à volta e a atazaná-lo com os zumbidos das asas.

Esta noite o narrador sonhou com, como dizer? com biomáquinas. Quer dizer, uns aparelhos orgânicos que à falta de um nome melhor pensado – ou que provavelmente nem deve ter sido inventado – só lhe ocorre chamar de biomáquinas. É que o raio dos aparelhos, para além de fazerem uma série de coisas incríveis, têm sentimentos e caprichos e tudo…

– – –

O narrador está mais uma vez sentado num dos conjuntos de quatro cadeiras e uma mesa, alinhados na horizontal na mesma estrutura de metal preto do centro de segurança social. Está aqui para fazer a prova de vida e, espera francamente, que seja a última prova de vida, pelo menos deste ano. A sala está cheia como sempre, mas isto é a segurança social e o motivo de comparências dos utentes/clientes é variado. Muitos estarão, como o narrador, para a apresentação quinzenal que o seu papelinho é o N061.

Dito isto, ou escrito, para ser mais rigoroso, ao narrador não lhe apetece narrar mais nada, de modo que fica assim meio parado a olhar para as pessoas, com a caneta no ar em suspenso como uma sentença…

– – –

O narrador está sentado numa cadeira de madeira com o caderninho de capa zebrada assente numa mesa também toda ela em madeira. (o narrador pensa há quanto tempo não narra aos ouvidos deste caderno e não se lembra) Cadeira e mesa, com outras iguais, estão dentro, ao fundo, de um estabelecimento que é uma coisa que mistura um café com loja de artigos de cozinha e snack bar vegetariano e… olha, chegou o cidadão que…

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[trinta e sete]

Fevereiro. Frio e um solinho de Primavera. Nas ruas umas crianças pequenas mascaradas que o carnaval é já neste fim-de-semana. O narrador sentado numa das cadeiras verdes de centro de desemprego. O narrador voltou a receber uma carta/convocatória por ter faltado (falta de comparência) ao dever de apresentação quinzenal. É a segunda vez e tal como na anterior, o narrador não faltou a coisa nenhuma. Avisado pela experiência foi verificar os papéis comprovativos das comparências que também indicam a próxima apresentação. Analisa-os um a um até que descobre, tal como na vez anterior, que as senhoras da segurança social fizeram asneira, assinalaram mal o dia da apresentação e a informação informática não chega ao centro de desemprego. Uma vez é lapso, duas já é incompetência, porra.

A sala está cheia e quente. O narrador despe o casaco e sente-se a transpirar por baixo da camisola de algodão grossa. O narrador troca de óculos e observa a sala. Repara uma vez mais que esta sala cheia é uma amostragem muito próxima do país, a proporção dos géneros, as diferenças étnicas e etárias e, como dizer, as diversidades sócio-culturais ou lá como é que isso se diz agora. Todos unidos pelo desemprego que o nosso governo gosta de nivelar as pessoas. A sociedade sem classes, todos desempregados. Mas por enquanto ainda nota diferenças, naquelas pequenas coisas em que se nota, na roupa, nos óculos, nos gestos, nos modos, no tom da voz, na maneira de falar, nos sapatos, no livro que se traz para empatar a sala de espera, no modo de atender o telemóvel, como se mastiga pastilha elástica, na forma como se fala às crianças e como estas gritam ou não, nos pequenos nadas. Partículas subatómicas de somos feitos…

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[trinta e seis]

Era uma vez um narrador que narrava sentado em mesas de cafés e estabelecimentos similares (mesas isto é, cadeiras junto a mesas, dizemos mesas mas referimo-nos sempre a um conjunto de pelo menos uma mesa e uma cadeira, como uma família monoparental, porque, de facto, nas mesas não se senta ninguém, quer dizer, nos cafés e restaurantes e isso, porque em casa de cada um, cada um é que sabe onde se senta e se uma pessoa quiser sentar-se nas mesas senta-se e ninguém tem nada a ver com isso, o próprio narrador, aqui há muitos anos, tinha o hábito de se sentar na mesa quando expunha a matéria aos seus alunos quando tinha alunos, quer dizer, sentava-se naquela mesinha que era a secretária do professor e que costumava estar assim quase ao lado esquerdo da sala para quem estava virado para o quadro quando havia quadro, que agora nem sabe bem como é, parece que aquilo é tudo computadores. Pois então, dizia o narrador, nessas ocasiões costumava sentar-se, mais um apoiar-se, na secretária para falar com os alunos, e eles à frente sentados em cadeiras. Era assim.) quase sempre a beber café, mas isso não constitui regra, depende. Gostava de se sentar em lugares, digamos estratégicos, junto a janelas ou portas, para poder observar a rua e o estabelecimento ao mesmo tempo, ver quem passa lá fora e o que se passa cá dentro, mas isso também não constitui regra, às vezes só quer escrever e nem repara…

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v i n d i m a s

Lá em baixo os homens despejam enormes baldes de plástico (sem o glamour dos velhos cestos de verga) na goela do reboque. O tractor equilibra-se como pode pela encosta abaixo, o sumo a escorrer, num rasto de Ariane, traça o caminho da adega. As uvas, ubérrimas de sol, vão ser esmagadas, ainda, por pés que as calcam como quem dança ou quem procura o futuro num corpo esventrado entregue em sacrifício. Os bagos transformam-se em mosto, sangue sugado da terra que tinge e inebria até adormecer de cansaço, sono tumultuoso de crisálida a fermentar no escuro mineral das talhas. A fermentação é o acto que consagra a transubstanciação do suor na substância do vinho.

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[trinta e cinco]

O narrador está, de novo, sentado, cadeira de madeira e aço, mesa quadrada encostada a outra mesa quadrada igual, mas isso agora não lhe interessa. Tem o caderninho de capa zebrada aberto à frente, a caneta – a Roting Tikky, preta – na mão, o café já metade bebido na chávena pousada sobre o pires branco e rosa em tons geométricos – na chávena ainda há roxo, talvez para a distinguir do pires. Acaba o último gole que lhe deixa na língua algumas borras de café que retira com o polegar e o indicador da mão esquerda. Não gosta nada de borras de café no fim do café. Ainda se soubesse prever o futuro no fundo da chávena, ler os números do euromilhões ou isso, mas não, e pede um bagaço. Meio bagacinho para aconchegar o café, bebido na chávena do café. O bagaço é daquele branquinho, caseiro, guardado numa garrafa de uísque por baixo do balcão, não vá algum inspector diligente pedir a factura no afã patriótico de salvar a economia do país.

(pausa)

O narrador aqui distraiu-se e esqueceu-se de escrever o que ia escrever. Mas o que ia escrever antes de se pôr para aqui a falar de cafés e bagaços era que, justamente, não tinha nada para dizer. O narrador quando entrou no café vinha mesmo cheio de boas intenções para narrar uma narrativa assim toda literária e interessante, e senta-se, começa a escrever e, mais uma vez, não lhe ocorre nada para narrar. E um narrador sem narrativa faz tanto sentido como a irreversibilidade de um ministro que continua, ou quase…

O narrador ajusta melhor os auscultadores nos ouvidos para não se distrair com a conversa das duas mulheres que estão por trás dele, e continua a pensar o quanto gostava de ter assunto para uma narrativa. Distraído, leva a chávena à boca para mais um gole de bagaço e a chávena vazia. O copinho também… o narrador fixa seriamente a página amarelada e, com um encolher de ombros, resolve pedir outro bagaço.

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[trinta e quatro]

O narrador está sentado numa cadeira de madeira e aço, de fundo redondo e costas em V fechado em cima e aberto em baixo, se calhar nem é bem em vê, mas com um bocadinho de boa vontade até pode ser. Entretanto chega um amigo de que estava à espera e lá se vai esta narrativa, ainda por cima num local novo por estrear…

Bom, mas para não se perder a página, está agora o narrador, no dia seguinte ao dia da narrativa interrompida, num dos cafés habituais, já antes pormenorizadamente narrado, pelo que passa à frente a descrição do espaço.

O narrador franze o semblante num esforço de recordar o que ia narrar no dia anterior, o da cadeira com as costas em, quase, vê. Lembra-se que tinha ido à Segurança Social fazer a prova de vida e que aí não escreveu nada porque, coisa rara, foi logo atendido. Lembra-se também que quando lá entrou a sua atenção foi desviada por dois factores de natureza distinta: o primeiro é que, logo à entrada do dito Centro, do lado esquerdo, está a secretária do segurança e, por trás desta, a máquina dispensadora de papelinhos alfanuméricos, e que, ao contrário de todos os outros locais do mundo, é preciso pedir a um dos afáveis seguranças (são dois, estão lá à vez) pelo respectivo papelito, o que só será obtido depois de este ter esmiuçado a diligência do utente, por exemplo, na maquina há vários botões ao lado de uma faixa onde está escrito o assunto, “Atendimento Geral”, “Emprego” e outras, ora, se o narrador diz: emprego, porque é que o raio do homem fardado precisa de pormenores?! de modo que o narrador diz sempre “Emprego” e o segurança pergunta sempre, “é para a apresentação?” ao que o narrador abana quase imperceptivelmente a cabeça num aceno majestático, enfim…

A segunda coisa a conquistar assim mais demoradamente a atenção do narrador (mas ainda mais do que a primeira, rotineira) foi o facto de a sala estar invadida por carrinhos de bebé, como uma floresta de anões com rodas, o que obrigava as pessoas a deslocarem-se em valsa ou slalom, conforme fossem mais atléticas ou dançarinas… O narrador conseguiu um lugar sentado na fila da frente, entalado entre duas terríveis cadeirinhas com bebés, felizmente adormecidos. Pensando bem, deviam estar todos a dormir, é que nem a mais ligeira brisa de ruído exalou daquela multidão de cidadãos sub2 enquanto lá esteve dentro.

Como já tinha narrado mais acima, o tempo de espera foi curto pouco. Depois de se sentar, o número do narrador surgiu no ecrã com o som habitual, e aqui o narrador pensa que deveria haver uma palavra ou expressão para designar a emergência em simultâneo de um som e de um número, um efeito que é ao mesmo tempo sonoro e visual, como os foguetes nas festas, mas com cor, ruído e números …

Continuando, o narrador levantou-se e dirigiu-se ao segmento de balcão indicado no ecrã/televisão onde, do outro lado estava, como habitualmente, uma senhora funcionária. E é aqui que queria chegar com esta conversa toda. A senhora, do outro lado, ergue para o narrador uma cabeça mastigante, e mais, consegue o extraordinário efeito de falar e mastigar em simultâneo, ruminantemente, uma enorme pastilha elástica, húmida e cor-de-rosa a fumegar um hálito de morangos químicos… o narrador até é um narrador tolerante e pacífico, mas, confessa aqui que ninguém o lê, só lhe apeteceu foi enfiar os dedos na boca da senhora, extrair a pastilha, esticá-la em rede por todas as direcções e colá-la harmoniosamente na permanente loira de tão diligente funcionária…

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[trinta e três]

Dezembro. Dezembro e o narrador sentado numa das cadeiras de madeira e metal do centro de Segurança Social. A fazer a “prova de vida” uma vez mais. O narrador pensava que por esta altura já não precisaria de vir aqui de quinze em quinze dias fazer a apresentação quinzenal. Mas o narrador é ingénuo e um tipo, como dizer? paradoxal: por um lado é pouco imaginativo, por outro, pouco realista, o que é uma faixa estreita para se viver, um arame escorregadio. Burocracias, inércias e outras porcarias, atravessam-se no caminho como excrementos de cão nos passeios da cidade. Enfim…

E cá está ele sentado mais uma vez, a olhar para o painel dos números e com o papelito na mão. N057. Desta vez a espera fá-lo esperar mais do que o costume. Repara que há uma árvore de natal no canto do balcão, onde este faz um L. Uma árvore de natal verde, de plástico, com bolas vermelhas e luzes verdes e vermelhas que acendem e apagam em três ritmos alternados, tem ainda umas fitas largas vermelhas e translucidas e, ao cimo, uma grande estrela vermelha como um ponto num i. Reparando melhor, e troca de óculos, há também uma luzinhas azuis numa fita de luzes mais abaixo.

Ao lado, um homem vestido de castanho, com botas castanhas, cabelo castanho e um chapéu castanho, a lembrar um tronco de árvore sem folhas fala com a funcionária em frente, do outro lado do balcão. Entretanto acende-se o número do narrador no ecrã de fundo verde e este dirige-se ao pedaço de balcão que tem por cima uma roda de plástico pendurada num tubo metálico, uma roda transparente, depois branca, com um desenho verde e vermelho, amarelo ao centro onde se destaca um número grande e preto. Por baixo, a senhora do atendimento com um dedo tatuado em anel, repara ainda o narrador antes de fechar o caderninho…

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perfume

É estranha a cor da terra nestes dias em que o calor desenha fantasmas de luz a meio caminho do horizonte e o chão exala um cheiro a lábios gretados e ao uivo surdo da sede. Ao longe, o canto das cigarras incendeia as asas dos pássaros que explodem no ar com um ruído de ossos partidos e folhas secas. O alcatrão derrete-se como chocolate negro, lodo nos sapais que agarra pés incautos e os puxa e afunda no hálito a ervas podres e enxofre dos pântanos. É com este tempo que se faz o sal, no rosto dos homens, nas axilas das mulheres.

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diário gráfico

Ao meu lado, uma mulher jovem pousa na perna azul uma mão de unhas pintadas em diagonal vermelho, brilhante. No anelar, um anel de metal branco e liso acentua um tom cuidadosamente misterioso. É bonita mas não gosto dos sapatos.

Do outro lado, um grupo de homens estrangeiros, de pele muito escura e traços quase europeus (seja lá isso o que for), asiáticos, talvez do Bangladesh, seguram nas mãos maços de papéis oficiais que encerram o seu futuro de cidadãos residentes neste país quase europeu.

Na televisão passa o programa da tarde que é igual ao programa da manhã, só que é à tarde. Donas de casa (nunca gostei desta expressão) e reformados de ambos os géneros batem palminhas ao ritmo de uma música que não oiço, uma mulher gorda e muito loura canta e a anfitriã rege tudo com um sorriso maternal e triunfante de abelha-mestra, de cerimónias.

Nos auscultadores enfiados nos meus ouvidos, Piazzolla e Gary Burton esgrimam instrumentos, num duelo feito de cumplicidades, e é estranho, no enorme ecrã à minha frente, ver aquelas pessoas a moverem-se ao ritmo da distância que separa o planeta onde vivem da realidade paralela onde eu estou sentado. Burton martela as notas a atapetar os passos elegantes do bandoneon num bailado perfeito que contrasta com as imagens da cantora loira e gorda a ensaiar bamboleios de pato nos saltos muito altos das suas botas de cano muito alto.

De repente, os números no monitor passam inesperadamente rápidos – gente que desistiu, com certeza – e a minha vez está quase a chegar.
Sou o 164. É agora.
Afinal não é aqui, é no outro Registo.

Olha a minha vida!…

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Vem comigo, porque é que não vens comigo?

Não foi.
Separaram-se ali. Devagar, como quem quer congelar o momento.
Espera-os um outro futuro que este não é compatível.
“Teremos sempre Lisboa e a marca dos teus dentes no meu coração” disse ela.
Ele disfarça uma lágrima com uma espécie de bocejo, a mão no rosto a esconder o passado – sabe que não são compatíveis e não há nada a fazer, é o regulamento.
“Vejo o teu rosto na moldura da almofada, gravei-o numa fotografia que trago comigo, na parte detrás dos olhos” não disse ele e olhou os barcos.

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